Consegui finalmente, depois de várias tentativas frustradas, chegar ao ponto exato na mistura de ferrugem macerada e água que resulta nesta tinta ocre com a qual escrevo. Ela não deve demorar muito a sumir, tingida pelo sol e pelo tempo, mas penso que antes vai-se o papel. Faltava-me ainda algo que pudesse usar como caneta. Tentei afiar pedaços de madeira contra a parede, mas o resultado foi grosseiro demais e a ponta absorvia boa parte da tinta antes que pudesse usá-la. Algumas semanas passei esperando que uma pena de pássaro entrasse casualmente por entre as grades da janela, o que não ocorreu. Insisti ainda com os restos de madeira (afiando-os agora com meus próprios dentes) e com fiapos de metal, mas nada dava certo.
Hoje tive a felicidade de ver, logo ao acordar, duas penas brancas no chão. Minha euforia acabou por despertar meu companheiro de cela, que acordou confuso e mal humorado. Notando minha alegria, aderiu às comemorações, até perceber o motivo de minha felicidade, quando deitou-se furioso e tentou voltar a cochilar. Ele, que antes já me julgava louco quando gastei algumas semanas no preparo dessa água barrenta, agora confirmou sua opinião definitivamente. Uma pessoa que se encontra encarcerada há anos e festeja o milagroso aparecimento de penas em sua cela deve ter sua sanidade questionada. Eu teria feito o mesmo.
Permito-me essa pequena introdução, a qual consome tempo e tinta, e o leitor deve estranhá-lo, mas quero justificar-me: uma vez conseguida a mistura exata, não tenho limitações na obtenção da ‘tinta’, pois não falta ferrugem a este lugar úmido e cheio de encanamentos deteriorados e disponho de mais água do que necessita a minha subsistência. E, de resto, o desperdício de tempo é uma das poucas extravagâncias permitidas a um prisioneiro. Mas como sei que disponho de mais tempo que o meu improvável leitor, começo já a história que me impus contar.
Duvido que o encontrem. Se há agora alguém lendo esse relato, trata-se então de mais uma prova de que o improvável é, no final das contas, possível.
1.
Essa história começa há algumas centenas de anos, quando um jovem e obscuro monge, estudante fervoroso de teologia, mergulha no universo daqueles que haviam defendido a hipótese da predestinação. Não me ocuparei de nomes, pois a História não os devem reter: citar que fulano ou sicrano fez a revolução ou gerou tal filosofia é negar a própria História e seu processo, a qual engendra revoluções e filosofias, usando casualmente fulanos e sicranos para atingir seus fins, mais ou menos do mesmo modo que um gene usa os indivíduos para perpetuar-se e espalhar-se. Mas como nos é impossível enxergar o todo senão pela evocação de suas partes, resigno-me a falar do tal monge, mas sem citar-lhe o nome. O estudante de teologia mergulhou demais no universo das hipóteses metafísicas para conseguir retornar ileso. O resultado de sua densa pesquisa nos registros religiosos foi um tratado que dá à causalidade um peso insuportável. Segundo ele “todo acontecimento, e portanto toda escolha feita por nós que venha a transformar-se num fato, por mínimo que seja, influencia todo e cada parte do universo para sempre”.
Penso hoje, na calma da minha cela, se esta conclusão não teria sido motivada mais pela insensatez de um adolescente recluso que pela busca da verdade. Afinal, quando lhe retiramos o tom exasperado, esse enunciado faz sentido e não muda em nada a realidade, a não ser no fato de nos tornarmos um pouco mais conscientes de nossos atos e de seus desdobramentos.
De todo modo, essa idéia adquiriu força entre os intelectuais ainda enquanto o tal monge vivia, mas não teve maiores conseqüências sobre a visão de mundo corrente. Não foi antes de um concílio de sua ordem que foi discutida pública e amplamente, agora não só por teólogos, filósofos, semiólogos e clérigos, mas também pela imensa massa de fiéis que, passando por uma época difícil, apegava-se a conselhos místicos como eu agora me apego a esta pena.
Alguns séculos mais tarde, a idéia dessa minuciosa causalidade havia recebido contornos ainda mais exagerados. Uma seita de cientistas desenvolveu-lhe alguns desdobramentos, chegando a conclusões absolutamente esdrúxulas as quais, no entanto, foram aceitas tranqüilamente. Eles conseguiam provar, por exemplo, que a eclosão de uma certa guerra estava ligada ao inesperado interesse de um estudante de medicina por sua professora de neurologia. Tendo o apoio de místicos, filósofos e cientistas a idéia espalhou-se, tornando-se comum encontrar a causa de um fato importante num acontecimento obscuro ou gratuito. A mídia vivia dando espaço para essas manchetes que faziam convergir a vida de um camponês com o suicídio de algum grande burocrata no outro lado do mundo.
Se pensarmos na época em que tal licenciosidade teórica floresceu, podemos achar motivos históricos que justificam esse estranho caminho no qual a humanidade se distraiu e acabou por perder-se. Num mundo dilacerado, fragmentado, era certamente reconfortante associar idéias distantes através dessa causalidade sinuosa e abstrata. Poder-se-ia ligar todos os nossos minúsculos atos aos eventos que mudavam o rumo do mundo. O anonimato mais infeliz e o poder de um demiurgo estavam agora separados apenas por um passo; um passo voluntário.
A partir desse momento a própria História da humanidade se perde.
2.
Perde-se porque começa a divergir em versões de versões de fatos; perde-se porque cada fato pode ser atribuído a causas distantes e inumeráveis; perde-se porque terminam os registros dela, ou pelo menos os confiáveis. Os poucos jornalistas que resistiam fazendo análises da situação presente, tentando prever os acontecimentos baseando-se nos fatos ¾ como faziam antes deles os oráculos com as entranhas dos pássaros ¾ caíram em desgraça e eram tidos como aberrações. Assim como os jornais, os livros começam a desaparecer em virtude do lento mas constante descrédito atribuído à informação escrita, até desaparecer por completo. Hoje os poucos que escrevem aprenderam em segredo em pequenas seitas tidas como reformistas, como é o meu caso, e sobrevivem por castigo, dispersos em várias prisões.
Penso hoje na ironia disso tudo: lembro que aprendi ainda criança que a História começa com a escrita. É triste e ao mesmo tempo irônico que, ao terminar a escrita, termina também a História, ou ao menos o seu registro. Estaríamos, segundo essa definição, em plena Pós História! Na verdade, dizer que a escrita simplesmente sumiu é uma simplificação. Ela continuou existindo ainda por alguns séculos, mas o uso que se fez dela é irrisório, tanto em quantidade como em qualidade.
São inúmeras as tentativas de explicar a história do período que se seguiu mas todas, contaminadas pelo próprio espírito da época, diluem-se em fatos pouco significativos e em linhas de raciocínio que recorrem a si mesmas a fim de encontrar alguma sustentação.
Os registros escritos tornam-se raros e, ao longo dos dois séculos seguintes, desaparecem por completo. Suspeita-se que esse desaparecimento se deve à fragilidade a que a relação causal foi exposta. A partir dessa causalidade que se ramifica em infinitas derivações, a escrita estaria confinada a devaneios insensatos, a imagens poéticas ou ao completo acaso e, para traduzir o acaso, a escrita é totalmente dispensável.
3.
Ainda agora questiono se o uso que faço dela é sensato ou se me perco, eu também, em devaneios, probabilidades e metafísicas. Pergunto constantemente o motivo da minha escrita, se minha única certeza é a de escrever para ninguém.
Caso encontrem esse manuscrito, tenho certeza que não saberão lê-lo. Talvez nem mesmo saibam tratar-se de um manuscrito (como meu companheiro de cela, que acredita que me aplico a uma espécie de pintura insistentemente linear, e que estes desenhos não passam de uma terapia que se interpõe entre mim e minha loucura) pois já não há quem reconheça um.
Nesta cela quase sem luz, tenho a vaga esperança de estar deixando o melhor testemunho que posso do que aconteceu ou pelo menos do que se pensa ter ocorrido. E, além desta, tenho uma segunda esperança: a de ser o mundo o louco e não eu; de ser ele que se tenha perdido em ilusões, miragens probabilísticas e labirintos metafísicos e não eu, que continuo a tentar mantê-lo preso do lado de fora de minha cela.
Quanto à idéia do monge sobre o efeito dominó da causalidade, sempre aprendi a desprezá-la por seus efeitos desastrosos sobre a civilização. Mas justamente os seus efeitos é que a provam verdadeira; provam que um acontecimento isolado, uma idéia simples pode ter efeito sobre todo o mundo, para sempre. E, sendo assim, todo o curso da História parece-me fixo e predestinado, escrito em estrelas ou em manchas que o licor derramado deixa em roupas de algodão cru, na íris de um de nossos filhos ou nas listas dos tigres.
Mas se cada minúsculo ato gera uma cadeia de fatos que muda de forma inevitável tudo o que existe, então o que muda o aparecimento dessas duas penas em minha cela, hoje pela manhã?
