Às vezes assisto a rituais religiosos e sinto que fico entalado entre o mais austero respeito e uma vontade espontânea de brincar com seus símbolos, de não levá-los a sério.
O ritual, que é uma rara oportunidade que se tem de voltar a um mundo em que os símbolos tinham uma força real nas comunidades, é também e por isso mesmo (pela força que seus símbolos querem evocar) um enxerto de algo estranho ao mundo que experimentamos… É como se fizéssemos um círculo na areia (na areia do espaço e na areia do tempo) e disséssemos para os outros: “o que acontece dentro desse círculo é muito, muito importante.” E esse círculo, desenhado na areia como uma brincadeira de criança, inserido no espaço contínuo da praia, cria uma descontinuidade apenas pelo fato de querermos que ele seja mais importante, sagrado. É como uma brincadeira. E é justamente essa semelhança entre rito e brincadeira que me causa essa sensação estranha, da qual não consigo me livrar por mais que passem os anos.
Um amigo meu, que nasceu numa ilha, me conta que voltou há pouco tempo para lá, visitá-la, e se viu numa situação estranha, pois apesar de conhecer muito bem a ilha toda (afinal ela não era maior que a energia de uma criança) não tinha laços que o fizessem sentir-se preso a ela. Os únicos que havia eram as suas lembranças, as suas lembranças da ilha e não as lembranças que a ilha tinha dele: lá, ninguém mais o reconhecia. Sentia-se, portanto, de posse de um território que conhecia em cada detalhe (deve-se lembrar que, quando se é criança, conhece-se os azulejos, as pedras e as formigas pelo nome) e esse território não o possuía. Essa sensação, de domínio e de liberdade ao mesmo tempo, era quase inédita para ele. Era como uma paixão irresponsável de adolescente. Mas já tinha mais de quarenta anos e, se havia algo a transpor para entrar em contato com a sua terra eram esses trinta e poucos de separação. Ele havia mudado. Sua ilha também. Mas aceitaram, ele e a ilha, esse fato com alegria.
Tratou de sair do porto e andar em direção ao centro, o qual não demorou muito para esquadrinhar e perceber o quanto havia mudado. O primeiro lugar que procurou foi a casa onde nasceu e viveu até os onze anos. A encontrou pintada da mesma cor, de um verde claro e aguado, que combinava com a cor do mar e com as cores também aguadas das casas vizinhas. Havia virado um comércio de bugigangas típicas, para turistas, mas mantinha o mesmo jeito, a mesma divisão e, em geral, a mesma arquitetura. Reconheceu o casal que tomava conta da lojinha e receou que o reconhecessem também, o que não aconteceu. Comprou um par de conchas grandes e espinhudas que ha trinta anos eram como pragas para quem quisesse passear nas praias, mas que hoje só podiam ser conseguidas por mergulhadores ou em ilhas vizinhas. Divertiu-se comprando, na casa onde havia vivido, as conchas que costumavam ser seus brinquedos. A mistura do familiar com o distante o divertia. Sentia-se ridículo e, por isso mesmo, divertido, sendo um turista em sua própria terra. Foi para uma pousada. Jantou e dormiu.
Acordou sabendo que tinha sonhado muito e lavou o rosto num lavatório de pedra que havia dentro do quarto. Ao girar o rosto para pegar a toalha, viu as conchas que havia comprado por pura diversão e sentiu uma mistura de tristeza e respeito por aquelas duas conchas. Sentia que, de algum modo, dividia um imenso passado com elas, que eram (na verdade, passaram a ser naquele momento) guardiãs de uma história de emigração e de regresso. Sentiu como se as conchas tivessem ficado lá, na ilha, à espera de sua visita, que só aconteceu depois de três décadas. Sentiu também todo o peso que havia em voltar para aquele lugar, para aquelas lembranças.
Olhou pela janela emocionado e pensou naquele pedaço de terra no meio do oceano como sua mãe. Sentia-se, de um modo quase inexplicável para mim, num verdadeiro processo de retorno ao útero.
Deixou-se perder em suas lembranças, debruçado na janela que, misteriosamente, mostrava agora as qualidades de uma mãe a um filho. Fixou seu olhar numa ilhota na extrema direita da paisagem e lembrou-se de algo que se perdia em anos. Nesse instante, batem na sua porta. Era a filha da dona da pousada, perguntando se podia arrumar o quarto.
Ele saiu no mesmo instante, pegou um barco e foi até lá. A ilhota estava cheia de ninhos de pássaros migratórios: ovos grandes e pequenos, brancos, amarelos, e até esverdeados. Afastou alguns ninhos do lugar, abrindo uma clareira na areia do tamanho de uma pessoa deitada.
Remou de volta à ilha-mãe e caminhou do porto até a pousada, leve e pueril, mas ao mesmo tempo ansioso. À noite saiu para jantar, mas não se demorou. Voltou e dormiu cedo.
Dia seguinte, tornou a pegar o barco a remo em direção à ilhota. Chegando lá, encontrou dois ninhos novos em formação na clareira que havia deixado. Sabendo que aqueles ovos eram frescos, preparou-se para pegá-los, imitando um ato repetido centenas de vezes, nos tempos de moleque. Mas parou. Aquela ilha era agora sagrada para ele, e sentia que não tinha o direito infantil de roubar-lhe os ovos. Naquela tarde voltou para a pousada austero e preocupado.
Na manhã seguinte repetiu o mesmo roteiro de pegar o barco até a ilhota, abrir a clareira na areia afastando alguns ninhos, esperar pelos ninhos recém-construídos e pelos ovos frescos, sem conseguir tocá-los. Repetiu tudo durante vários dias, até que se tornasse um ritual, até sentir, em um desses rituais, que lhe era permitido novamente fazer o que o amadurecimento havia lhe negado: tocar os ovos, como fazia há trinta anos, como se fosse ainda uma criança, para quem os rituais são brincadeiras e as brincadeiras são rituais.
Só então resolveu voltar.
