Quando era menino, lembro de meu pai me contar a respeito da crença em uma correspondência entre o que está abaixo e o que está acima. Nesse sonho, imaginado por alguns e acompanhado por muitos, as coisas se passavam como se tudo o que podemos ver e perceber tivesse um correspondente celeste, perfeito e intocável. As coisas, as pessoas, o mar e mesmo o céu, os aromas (esses seres de vida efêmera, que não comportam em minha imaginação nenhum correspondente) e até nossas felicidades e tristezas são, segundo essa crença, sombras de seres ou ideias perfeitos e não perceptíveis, que moram num mundo superior ao nosso. Não sei se essa superioridade é literal ou não e, de todo modo, nunca consegui entender bem esta crença (se é que nossa tarefa é a de entender as crenças, e não a de achá-las belas ou grosseiras).
Embora ache essa ideia bonita, não concebo esta estranha correspondência, já que tudo o que vejo são as nuvens pesadas que ameaçam a mim e ao meu barco. Mas me lembro dela em alguns momentos, como agora, ao perceber que a escuridão das nuvens determina a cor do mar, e que parece haver um acordo entre céu e mar em revoltarem-se ao mesmo tempo. De todo modo desconfio que não era disso que meu pai falava.
1.
Já não consigo distinguir entre barco e sombra, agora que me percebo sombra… Não distingo a linha que divide céu e mar e para todo lugar que olho, vejo a mesma coisa: o escuro e a tempestade que se aproxima.
Tem sido assim há anos; desde sempre vivo neste barco. No mesmo barco em que nasci, e em que nasceram meus filhos. A mais nova dos três partiu há pouco e decerto já faz parte do chão impreciso em que navego.
Estou só, agora. Não existem mais portos como antes. Lembro de meu pai, que nasceu também em um barco fundeado no cais de um vilarejo. Isso não existe mais: nem portos nem vilarejos. Gasto algumas tardes pensando se os portos sumiram ou se ficaram mais distantes… Nunca soube o que aconteceu. Às vezes penso que as histórias sobre cidades e portos são lendas; histórias que dizem de um mundo possível e sonhado mas não verdadeiro e, como ninguém toca no assunto, cada um conclui o que acha mais provável ou mais reconfortante. Às vezes a realidade é uma questão de preferência pessoal. Tudo o que resta em mim desses lugares são algumas imagens de barcos enormes com cores espetaculares, e mesmo alguns cheiros que hoje temo ter conhecido apenas em sonhos. São lembranças vagas de minha infância, tempo em que íamos ainda, uma vez por ano, a um lugar onde se reuniam várias embarcações de diferentes tamanhos e cores. Era uma espécie de festa que comemora o início da ventania de verão. Hoje não sei mais se as imagens que tenho impressas na mente vêm de coisas que vivi ou que sonhei; ou ainda de coisas que imaginei ao ouvir as histórias de meu pai. Não vejo grande diferença entre uma coisa e outra, já que vivemos num mundo tão ilusório e tão distante de nós.
Começa a acontecer o mesmo com as imagens que guardo de meus filhos. Já não me lembro bem deles; suas feições e suas expressões confundem-se na minha memória e já não sei mais se tal gesto era de um ou de outro. Tudo o que até há pouco servia para diferenciar, hoje serve apenas para confundir. Até mesmo suas idéias são, a esta distância, um conjunto de sonhos aos quais não consigo atribuir um dono seguramente.
Acho que isso só não acontece com o que guardo de minha mulher. Lembro perfeitamente (ou creio lembrar-me) de seus olhos verdes, de seu corpo, do seu rosto sentindo prazer, de seu cheiro doce, das brincadeiras que tínhamos entre nós, do seu jeito de encolher-se para dormir, das expressões que fazia enquanto dormia.
Penso que quando conhecemos alguém a ponto de sabermos (ou pensarmos saber) sua cor preferida, seus desejos e medos mais íntimos, paramos de confundir esse alguém com qualquer outro. Talvez essa seja a única lembrança que tenho como segura, a única que corresponde ao que imagino ser realidade.
Sei que na próxima calmaria vou ao encontro dela, não por saudade ou por dever: me move algo que flutua calmamente acima das minhas escolhas, um imperativo ou coisa assim. Às vezes desejo que o tempo abra e que o mar se acalme, o que nunca acontece. Outras vezes, desejo o contrário, desejo ter mais tempo.
2.
Desejo também que eu lembre de como nadar. Dizem que estas coisas não se esquece. Não tenho a menor ideia de como o mar vai me tratar: pode me receber como a um amigo esquecido, ou como a um desconhecido e, entre estas duas situações, há um abismo imenso. De todo modo, espero ainda saber nadar, afinal, creio ter nadado bastante durante esta vida. Ou, ao menos, creio lembrar-me disso.
Creio.
