Notas de um antropólogo cansado: Parte 5

1.

O dia havia começado com a desistência de meu guia em prosseguir viagem, o que me deixou apreensivo. Não partilhávamos língua alguma, mas a expressão em seu rosto era o bastante para me fazer entender que suas restrições àquele povo eram brutais. Compreendi que havia algum tipo de superstição que o impedia de prosseguir. Ele se restringiu a me indicar a direção de um pequeno planalto, esperando que fosse o bastante para que eu encontrasse meu destino. Desse modo, perdi o guia e a mula de carga de uma só vez, e meu avanço tornou-se lento e vacilante.
Depois de algumas horas de caminhada difícil e íngreme, comecei a me sentir um pouco perdido, pois a mata se fechava à medida que me aproximava de uma grande subida. Não era mais possível ver muita coisa e mesmo o sol eu só podia intuir pelas poucas frestas de céu que as copas das árvores deixavam. Decidi que continuaria sempre subindo, até encontrar um lugar de onde pudesse me localizar melhor.
Começava a me sentir muito só e à deriva naquela selva densa quando tive o que supus ser um bom presságio: uma árvore com um risquinho oblíquo entalhado. Lembrei-me de um livro de Júlio Verne, em que um explorador pioneiro havia feito marcas numa pedra para mostrar o caminho ao seu sucessor. Logo percebi que meu presságio não era exatamente o que eu esperava. Mais à frente outras árvores: alguns riscos paralelos, outros ortogonais, logo depois, figuras humanas, bichos, os montes, os rios, tudo entalhado nos troncos. Aquele primeiro risco, com certeza, não era uma indicação de rumo, mas o começo de um trabalho ainda inacabado. Mesmo assim, era certo que aquilo era sinal de gente por perto.

2.

Mais uma hora de caminhada extenuante e não havia mais sinal de árvores entalhadas. Prossegui mais um pouco e comecei a pegar umas frutinhas que pareciam amoras selvagens que guardei para o lanche. Foi quando ouvi uns cochichos. Parei um pouco e decidi que, se houvesse um encontro, que fosse durante uma refeição. Coloquei minha mochila no chão e começava a tirar algumas maçãs quando ouvi um som de espanto. Sabia agora que quem me observava era uma criança. Não uma, mas três: duas meninas e um menino, que se aproximaram com olhos arregalados. Quase sem perceber que eu estava ali, tiraram as maçãs da minha mão e as provaram, sem nenhuma cerimônia. Homem, já tinham visto, maçãs, nunca. Logo depois de acabarem com minhas poucas maçãs, passaram a desenhá-las no chão, umas depois da outra. Minhas quatro ou cinco maçãs se transformaram em vinte ou trinta, desenhadas, umas vistas de cima, outras, de lado, umas agrupadas, outras não. E apesar de não haver mais maçãs para terem como modelo, as desenharam com uma perfeição incomum.
Eram sorridentes as crianças e pegaram minha mão, arregaçando as mangas de minha camisa. Tinham uma expressão que misturava espanto e gozação. Abriram minha mochila e começaram a tirar uma ou outra coisa.
Com o tempo, se desinteressaram dos meus objetos e decidiram ir embora. Tentei segui-las, o que se mostrou bastante difícil, já que eram crianças e se moviam muito mais rápido do que eu, com minha carga. Mas quando se distanciavam, eu assobiava e elas gentilmente me esperavam. Depois de mais uma hora de caminhada, abria-se uma espécie de clareira em declive. No momento em que olhei para o chão deste espaço aberto tive então a primeira de uma série de surpresas: a clareira era enorme e se prolongava para a direção do nascente por quilômetros; o chão, todo desenhado com os mesmos motivos que acabara de ver nas árvores. Para mim, pareciam ruas e avenidas que se cruzavam, como se fossem a marcação de uma imensa cidade que em breve iria ser construída.
Nesse momento, repassei pela memória a única referência que tinha do povo que estava prestes a encontrar. Era o diário de um navegador chamado Nessun Kasenra que, duas gerações antes, de passagem pelas Ilhas Gambier, havia aportado a fim de conseguir água potável para a tripulação. A descrição que fazia era bastante breve e incompleta. Chamava a atenção para o fato de serem “desenhadores obstinados” que retratavam tudo o que viam e imaginavam. Tinham desenvolvido bastante a arte da tatuagem e tinham seus corpos cobertos por desenhos geométricos. Cada forma tinha seu significado, mas meu predecessor não deu mais detalhes. Fecha seu relato dizendo que havia sido convidado a se deixar tatuar mas que, ao recusar a honra, havia sido expulso sem a desejada água, sem nada. Infelizmente, seu diário não trazia nenhuma ilustração.
Andamos pelas “avenidas” desenhadas até um povoado. Umas quarenta casas, aparentemente vazias. As meninas, que agora me pareciam gêmeas, entraram numa das cabanas. Dali saiu uma mulher com uma expressão de espanto que devia, aos olhos do menino, espelhar a minha. Achei que vestia alguma coisa parecida com meias de seda rendadas e luvas que se prolongavam até os ombros, como se fosse uma Gilda dos trópicos. Essa perspectiva, no entanto, me pareceu bem estranha. Ela, de seu lado, já havia substituído seu olhar de espanto pelo da compaixão. Certamente vendo que meu espanto era maior que o dela, se aproximou e fez o mesmo gesto das crianças: arregaçou as mangas da minha camisa e me olhou nos olhos com uma pena imensa, provavelmente pensando que eu era um desgraçado por não ter em mim sequer uma tatuagem. Com a proximidade vi que era muito bonita e pude supor que seu gesto suave ao esticar novamente as minhas mangas tinha a intenção de fazer diminuir meu espanto. Percebi também que suas “meias” e “luvas” eram feitas de tatuagens minúsculas, que rendilhavam o seu corpo e que, de resto, estava nua. Não sei se por causa da sua beleza ou pelo seu olhar piedoso, eu me sentia mais desprotegido que ela.
Tirei minha mochila e me aprumava para sair daquele estado de desconforto quando as meninas voltavam com umas seis ou sete pessoas, homens e mulheres. A estes juntaram-se mais tarde uns cem ou cento e cinqüenta. Os homens, tatuados no corpo inteiro, as mulheres, nas pernas e nos braços.
O encontro foi, de resto, bastante calmo e, em meia hora, estávamos rindo sei lá do quê, pois não entendíamos nada uns dos outros. Toda a tensão do dia havia passado e, ao pôr do sol, me levaram a uma cabana um pouco distante para que pudesse descansar.

3.

Nos dias que se seguiram, pude compartilhar da vida diária dessas pessoas, sempre bem-humoradas e bastante compreensivas com meu jeito diferente. De início, sua língua era de um mistério completo e não pude nem mesmo saber onde terminava uma palavra e começava a outra. Com o tempo, aprendi uma ou outra coisa.
Foram três meses que se passaram ali, pescando e colhendo frutas, caçando e, sobretudo, desenhando. Se íamos pescar, uns saíam de barco, outros desenhavam na areia. Se colhíamos frutas ou caçávamos, a mesma coisa. Os desenhos eram feitos sem nenhuma preocupação, no chão, nas árvores, tudo o que se prestasse a ser suporte. Mas quando o suporte era uma pessoa, a pintura, normalmente levada como uma coisa quase casual, era transformada numa cerimônia. Tive a chance de ver um garoto de uns onze ou doze anos ser levado à beira de um rio e deitado de barriga para cima. Traçaram um risco que o dividia pela altura do umbigo. Embaixo, desenharam um cachorro que estava por ali e infinitas linhas paralelas horizontais. Umas plantas, pedras, e o rio, deixando algum espaço em branco. Acima do umbigo, desenharam o céu, com tintas azuis, amarelas e vermelhas, pois já era à tardinha. Algumas partes ficaram limpas, me explicaram, para que houvesse o que pintar quando o menino casasse ou fizesse uma boa caça. Depois, todos entraram no rio, menos o menino, que deveria esperar até que a tinta tivesse sido absorvida e as cicatrizes fechadas.

4.

A sinceridade daquela gente era impressionante. Faziam críticas à toda hora, mas sem maldade alguma, sem desejar mal ou sentir inveja… eram simplesmente sinceros. Mas se engana quem pensar que, por isso, tinham costumes simples. Pensamos sempre no mundo ocidental como o mais complexo possível, tomando como base o nosso domínio da tecnologia, mas nossos costumes são infinitamente mais simples e grosseiros perto dos deles. Para que haja um casamento, por exemplo, é preciso uma série de coincidências. Se alguém havia nascido na estação das chuvas, deveria casar com alguém nascido no estio. As tatuagens também deveriam manter entre si alguma harmonia. “Não era possível manter um casal unido se seus desenhos fossem muito diferentes”, me informou um dos tatuadores. E essa harmonia era determinada através de cerimônias complicadíssimas, em que, por uma noite inteira, os velhos discutiam, na frente do casal aspirante, se seus desenhos eram propícios, numa espécie de astrologia em que os planetas estão desenhados no próprio corpo. Nas festas do estio, as únicas que presenciei, quem servia eram as pessoas com símbolos das monções. Nas da estação chuvosa, o contrário. Os caçadores serviam caça, os pescadores, peixes e mariscos, e assim por diante.
Durante semanas estudei a pintura do corpo desse povo. A maneira como revestem sua pele com símbolos e mais símbolos é vertiginosa, não chegando a ficar uma área sem ser escrita, como se o corpo fosse feito somente para este fim. Eles achavam que o corpo era escrito com coisas (as rugas, as manchas, as cicatrizes). Escrever com tinta era reafirmar que existe uma escrita mais humana, menos fortuita que aquela deixada pelos anos. É fazer a cultura sobrepor a natureza. É fazer que o que pensamos seja sobreposto ao que somos, para que os símbolos que criamos, substitutos imperfeitos das coisas, habitem, ainda que superficialmente, nas coisas.
E a história que retratavam, que se prolongava até o passado através das rugas artificiais que criavam, prolongava-se também para o futuro. Às vezes entalhavam numa árvore em qual estação havia nascido, e indicavam igualmente quando iria morrer, arriscando-se a uma previsão incerta mas, segundo me disseram, infalível. Tive, em minha pequena permanência com eles, a impressão que realmente o era, já que não haviam árvores onde figurava uma previsão não realizada.

5.

Já tínhamos uma certa intimidade e eu sentia que me tratavam com igualdade, rindo de minha inexperiência com o arco e flecha e de meu jeito diferente de nadar. Foi, portanto, difícil pensar em partir dali, mas consegui, não sem algum esforço, dizer que deveria ir antes da estação das chuvas. Talvez por me ter interessado tanto pelas cerimônias de pintura desde que cheguei, resolveram que eu seria pintado também, antes da minha partida.
Nesta tarde, a hora chegou e fomos à mesma beira de rio para a pintura. Explicaram que eu deveria ser pintado pela pessoa que me encontrou. Por alguns instantes tive a impressão de que eu viraria uma tela para aquelas três crianças e que meu peito teria que carregar para o resto da vida uma cesta cheia de enigmáticas maçãs. Quando já pensava numa maneira de explicar isso tudo aos meus conterrâneos, explicaram que as crianças não podiam ainda pintar ninguém, pois não haviam ainda sido, elas mesmas, pintadas. Deviam treinar nas árvores e no chão ainda por alguns anos.
Disseram depois que a função da pintura era a de ressaltar o que já existe. Se eu já não era o mesmo desde que havia passado por ali, deveria ser pintado para que as mudanças fossem descritas em meu corpo, da mesma forma que faz a natureza.
Mostraram os anéis concêntricos que aparecem na seção de um tronco de árvore. Os anéis mais claros são feitos pelo inverno, os escuros eram feitos pelo verão. Assim, se podia saber quantos anos tinha a árvore. Do mesmo modo, os muitos desenhos que meu corpo tem naturalmente (o aparecimento de pêlos brancos em minha barba; a rigidez dos músculos das pernas, que se acostumaram a extensas caminhadas diárias; as expressões faciais que aprendi, que são definitivamente outras e que servem como uma espécie de mapa do que vivi e senti) deveriam ser pintados em meu peito, pernas e rosto.
Ao meio dia, fui colocado no chão pela moça que primeiro me viu. Tomei um suco que tinha a função de anestésico e paralisante, para que eu suportasse a dor sem me mexer. Com os olhos fechados, o sol manchava nas pálpebras um caleidoscópio de cores e eu sentia a pele do meu rosto encolher pelo calor. A dor das incisões não era pouca mas, a partir de um certo momento, a pele entrou num estado de dormência. Para meu espanto, deixou intacto meu rosto. Depois (umas três horas depois), pediu que eu me virasse, para continuar a pintura em minhas costas. Nessa altura, não havia o menor resquício de dor. Eu nem mesmo sabia em que parte estava sendo pintado; era como se minhas costas não existissem, ou não fizessem parte do meu corpo.
Com a cabeça virada para o lado, fixei meu olhar na pintura das costas de uma moça, onde figuravam milhares de linhas e de coisas. No final da coluna, perto do pescoço, uma figura me chamou a atenção: a moça, já velha, se afogando. Instantaneamente, entendi que era assim que a mulher iria morrer. Percebi, em meu estado semi-anestesiado, que eles desenhavam, uns nos outros, seus próprios destinos. Eu era, para eles, tão transparente quanto aquele tronco de árvore que mostraram. Sabiam quantos anos eu ainda viverei, o que acontecerá com minhas próximas expedições e de que modo morrerei. Percebi que o meu destino estava sendo traçado pela mão de uma mulher de uns vinte e poucos anos, sorridente e que nunca tinha conhecido outro modo de viver que não aquele, nunca tinha saído de sua aldeia natal, totalmente desavisada do mundo.
Agora, que a moça chega com seus desenhos ao meu pescoço (posso sentir seu braço apoiado nas costas do meu ombro), não posso deixar de pensar que, ao desenhar as circunstâncias da minha morte, ela continua sorrindo.

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