What song the Syrens sang, or what name Achilles assumed when he hid himself among women, though puzzling questions, are not beyond all conjecture.
Urn-Burial. Chap. v. Sir Thomas Browne
Dizia-se que existiam também centauros vivendo nas montanhas, conhecedores de plantas curativas e de outros mistérios, mas disso nada posso dizer, já que nunca os vi. Talvez por isso me chamem de cético, mas defendo-me dessas acusações situando-me, eu mesmo, como autor delas em outros assuntos. Quando conto essas histórias — quando raramente as menciono, já que hoje não se pode mais afirmar algo sem antes se abastecer de provas materiais — sofro o desdém dos meus ouvintes, que mudam de assunto, como quem não quer se deter ouvindo disparates. E não tenho como comprovar seguramente o que digo, já que não tenho nada que me ligue ao meu relato a não ser minha memória, a qual, com o passar do tempo, já se torna objeto da minha própria desconfiança. Sou, desta forma, chamado de cético e de falso, par de atributos raramente encontrados num só homem. Aviso, desde já, o leitor que estes atributos não foram de todo estranhos à minha vida e não são, do mesmo modo, estranhos ao meu caráter. A partir de agora e feita esta advertência, o leitor encontra-se por sua conta e risco.
1.
Vivíamos em um lugar de praias extensas e grandes lagos salgados, ladeados por montanhas verdes e escuras, cujos cumes eram praticamente inalcançáveis.
Entre estas muralhas e nós estendiam-se planícies que ora se alargavam, ora se estrangulavam com a aproximação repentina da orla. Íamos uns às casas dos outros chamando para ir à praia, obedecendo ao ritual diário de todo adolescente: o de repetir à exaustão as companhias e os lugares. Eu era um dos mais preguiçosos, mas não perdia a chance de vê-las ainda na areia, sob a festejada luz da “aurora de dedos róseos”, alaranjadas pelos raios oblíquos desta hora do dia.
E não era a cor que eu amava.
Antes da alvorada saíam do mar em bando, todas juntas, movendo-se desajeitadamente, também num ritual diário que, aos poucos, passamos a conhecer bem. Sorrindo, ou melhor, rindo não se sabe bem de quê (elas sempre riam, já que não falavam língua nenhuma que não o próprio riso), derrubavam cansadamente seus corpos após ter vencido alguns poucos metros de percurso fora d’água. E distraíam-se: faziam desenhos com conchinhas e montinhos de areia enquanto cantavam melodias longas e cheias de melismas. Cavavam um pouco com aparente desleixo e sem propósito. E riam.
Quando nos viam, assustavam-se (fingiam assustar-se, como as moças do povoado ao serem chamadas para dançar) e alvoroçavam-se; moviam-se novamente em direção à água, e entravam no mar antes que pudéssemos alcançá-las. E mergulhávamos nós também atrás delas, tentávamos nos aproximar e ríamos também só de vê-las tão lindas, nuas e sorridentes para nós, algumas com cabelos pretos e escorridos, outras loiras, outras negras, e outras de cabelos vermelhos e encaracolados. Elas, que brincavam entre si, passavam então a brincar conosco e a gracejar e a nos convidar. Alguns dos meus amigos faziam estrepolias na água para impressioná-las, outros, afoitos, tentavam tocá-las. E elas, muito mais ágeis que nós, sempre escapuliam de nossos abraços como peixes alegres. Mergulhávamos atrás delas, tentávamos persegui-las, mas elas só riam dos nossos esforços. E era um riso contagioso, e ríamos também. Subíamos à tona e tentávamos ensiná-las a falar algo em nossa língua; fazíamos com que pronunciassem palavras que não compreendiam (inventávamos palavras novas, na tentativa de criar uma língua híbrida), e elas tentavam, mas nunca conseguiam, e riam e conversavam com o próprio riso, um riso agudo, similar ao guincho da gaivota.
Depois de algum tempo — dias, meses? — criamos uma brincadeira que consistia em subir ao alto de uma pedra à beira-mar e mergulhar lá de cima. Elas nos esperavam soltando bolhinhas dentro d’água para sabermos onde estavam. E mergulhávamos, cada um na direção de sua preferida. Como prêmio, recebíamos beijinhos no corpo enquanto estávamos ainda entorpecidos pelo mergulho e preocupados em voltar à tona. Quando voltávamos para mais beijos, elas se recusavam e fugiam fazendo piruetas, imitando nossas caras distorcidas pela procura de ar. E riam.
Depois de algumas horas, iam embora: acenavam e mergulhavam.
Ficávamos depois conversando sobre elas, sobre as particularidades de cada uma, de seus cabelos, seios, braços, quadris, nadadeiras. Comparávamos os seus sorrisos uns com os outros e votávamos para ver qual era a mais bonita. E eram todas sedutoras como nenhuma mulher poderia ser, não porque eram belas ou porque tinham belos cabelos, mas porque riam o tempo todo, um riso sem nenhuma outra pretensão que não a da própria felicidade. Eram sedutoras porque não tinham a intenção de seduzir, porque sua sedução era a beleza natural de uma onça ou uma águia, eram o curso do vento ou a cor de uma folha. Quando as víamos era uma parte intocada da natureza que víamos; e nós, homens, garotos, só pensávamos em tocá-las.
2.
Sei que estas linhas devem deixar o leitor inquieto: a quem se está tentando enganar? Do que trata, afinal, esta descrição? Vivemos num mundo já exausto de novidades, esquadrinhado à exaustão. Devo estar, portanto, confundindo minhas leituras com minha memória pessoal… bêbado de Odisséia, como o Quixote de novelas de cavalaria, criei meus próprios moinhos feitos de corpos de “mulher-metade-peixe”.
No entanto, o leitor mais precavido há de se lembrar que Ulisses conheceu outro tipo de ameaça. Homero não se arriscou a descrevê-las (talvez, como eu, por medo de ser ridicularizado) deixando a oportunidade a Ovídio, centenas de anos depois: corpos de pássaro com cabeça de mulher, da qual saía um canto irresistível.
Não é, portanto, destes pássaros que estamos falando. As mulheres de que trato não têm nada de pássaro, posso garantir! Mas sei que estas ressalvas não deixam em paz o leitor que, impaciente, exige documentos e provas irrefutáveis: Quando apareceram? De onde vêm? Há fotografias?
Nada, não há nada. Como já disse, tenho somente, ainda que de modo titubeante, o acesso à minha memória, e é só o que posso oferecer.
Diz-se que, quando perdido na noite ou na floresta, não se deve desprezar a hospitalidade, mesmo que de um estranho. Se a realidade é esta floresta, permita-me ser este estranho: aceite o relato como o exponho, o abrigo já nos espera, a frente, quase posso vê-lo. Se a generosidade do leitor não for para tanto, que o aceite então como o homem comum aceita o que sonhou: sem remorsos, sem raiva, mas também sem desconfiança.
Se me perguntarem quando tudo começou, não saberia dizer. Desde que tenho lembrança, acontece assim. Há quem tenha sua primeira lembrança no interior de sua casa, no rosto de seus irmãos, num brinquedo. Não eu. Minhas primeiras lembranças são as de vê-las em seu ritual matinal, eu no topo da montanha, criança, ainda sem poder me aproximar. E a cor. Aquela cor que nunca haveria de sair de minha memória. E as formas, sob a luz.
3.
Um dia percebi que uma, de cabelos escuros e muito lisos, demorou-se mais na despedida, e olhava para mim insistentemente enquanto as outras já tinham mergulhado. E tive a impressão de que por um momento não estava mais rindo, e despedia-se com um leve pesar. Mergulhou calma e tristemente, sem sorriso, sem o aceno de costume.
Nesse dia fui para casa sem me reunir com os outros, saboreando minha pequena conquista: a sombra de uma despedida especial. Passei o dia pensando no que aquilo poderia significar, e à noite custei a dormir, desejando que já fosse outra manhã, para revê-la e olhá-la nos olhos.
No dia que se seguiu, elas já estavam na praia, nos esperando. Entraram no mar assim que nos viram, soltando gritinhos, e entramos logo atrás, seguindo-as com um mergulho. No início, a que havia se despedido parecia não me dar atenção especial, brincando com todos e com suas amigas, mas logo veio para o meu lado e fez sinal para a pedra da qual mergulhávamos. Fui com os outros. Subindo a pedra com dificuldade, mirei na direção de suas bolhinhas, mergulhei de cabeça e desta vez consegui beijá-la rapidamente, antes que ficasse totalmente sem ar. E ela não fez muito caso, parecendo que já esperava meu beijo, que tudo só acontecia por ela estar disposta. Depois, quando ficamos lado a lado, ela deixou seu braço enlaçar as minhas costas, distraída.
Nesse dia, ficamos sempre próximos até o sol subir. Na despedida não tive dúvidas de ter sido escolhido por ela como companhia ou namorado. E foram outra vez para alto mar, com mergulhos profundos que não conseguíamos seguir. E davam guinchos que ouvíamos sob a água mesmo depois de algum tempo. Saímos para a praia já com a pele enrugada e com os olhos doendo do contato com o sal marinho. Secamos ao sol como peixes recém pescados e conversamos novamente sobre elas e como seria o lugar em que moravam, e de que modo viveriam, e como podiam ser tão belas e felizes, e se poderiam, um dia, sair da água por um pouco mais de tempo para satisfazer nossa curiosidade e nossos sonhos.
4.
Ao longo dos dias seguintes, ficava cada vez mais próximo da minha pequena namorada morena. Nadávamos juntos em direção ao alto mar, ela sempre querendo me levar mais fundo e mais longe, talvez para o lugar em que vivia; obviamente eu desistia assim que a profundidade atingia os seus primeiros metros. Ela, desconcertada, não entendia o motivo que me levava a retornar e insistia, um pouco contrariada.
Aos poucos adquirimos sobre elas a confiança necessária para ficarmos juntos, lado a lado, à beira-mar. Percebi que sentiam-se expostas enquanto na areia. Podiam ser facilmente capturadas, sem os movimentos ágeis que tinham n’água. Se nossos pais nos diziam que não nos misturássemos com elas, que não nadássemos muito para o fundo, que não mergulhássemos a partir dos rochedos, a elas provavelmente diziam seus supostos pais que não saíssem d’água sem motivo. Todo conhecimento tem seu risco, inútil repetir o ensinamento de uma centena de historias infantis. Foi, portanto, trabalho árduo e lento conseguir que saíssem sem sentirem medo.
Minha companheira, a princípio, tremia ao sentir o roçar da areia, quando estava ao meu lado. E eu sabia que o medo era que eu a segurasse e a prendesse. Aos poucos, no entanto, ela consentiu. Certa vez tive a impressão de ter conseguido me comunicar com ela enquanto descansávamos junto ao rochedo. Pelo pouco que entendi, ela dizia que vinham à praia porque sentiam falta do sol sobre a pele e que, conforme ele subia na abóbada e ficava mais quente, elas iam embora por não suportar a secura e o calor. Nessa altura estava já apaixonado e vivia integralmente em função de nossos encontros matinais. A admiração incondicional pela beleza da minha amada — admiração inocente, que se estendia facilmente às outras — levava-me a querer entrar cada vez mais em seu mundo despreocupado. Sua atitude parecia apenas balizada por desejos momentâneos; elas viviam como que envoltas numa narcose de harmonia inconsciente a qual, aos poucos, eu tentava acompanhar. Com o tempo, entrei eu também nesse estado de completude, de ignorância feliz e quase religiosa, mas ao mesmo tempo, quase animal de tão instintiva. Nossa confiança mútua crescia diariamente e minha paixão de adolescente era, aos poucos, correspondida. Ao menos, eu achava que era.
Levantava-me apenas algumas horas antes do sol e as esperava do alto do nosso rochedo. E o mar as atirava na praia como se se tivesse engasgado com um rodamoinho de areia. No exato momento em que o sol despontava, viravam-se para ele com os olhos fechados e murmuravam como se falassem todas ao mesmo tempo e apressadamente. Isso durava alguns minutos. Iam parando conforme seus corpos eram iluminados de tons alaranjados e aquecidos pelas primeiras luzes; depois separavam-se umas das outras, com o olhar baixo e fixo em algo que não existia. Reparei que eram menos risonhas quando estavam sozinhas; só brincavam, juntando areia e olhavam as montanhas deixando a cabeça adernar. Mas era anunciarmos nossas presenças para que sorrissem e se alvoroçassem, como que despertas de supetão por um sopro de vida acidental.
Essa rotina durou uns dois meses, ao final dos quais cada um de nós já tinha provado os beijos intensos e salgados das nossas alegres namoradas.
5.
Numa manhã enevoada, depois dos costumeiros mergulhos a partir do rochedo, competimos entre nós para ver quem mergulhava mais fundo, enquanto elas arbitravam confusamente nossa disputa. Ao voltar à tona mal podíamos nos ver, tão densa a névoa que nos rodeava. Abaixo da linha d’água, no entanto, tudo permanecia límpido.
Umas duas horas depois, exaustos e um pouco tontos de repetidos mergulhos, nos despedimos delas com abraços e beijos escorregadios, e saímos d’água para descansar. Voltávamos a explorar nossos assuntos preferidos, agora temperados com nossas conquistas diárias: um afago mais ousado, um beijo mais demorado, a forma de suas bocas, a reação de cada uma ao ser beijada e tudo o mais o que pudesse fazer demorar em nossas mentes o momento em que tínhamos de voltar à nossa vida e às nossas casas para os afazeres diários.
Estávamos nisso quando alguém notou a ausência de um do grupo. Não recordo agora seu nome, mas vejo-o claramente em minha mente, cabelos e olhos claros, baixo e magro. Lembramos a possibilidade de ter-se retirado antes de nós, mas logo a descartamos. Voltávamos correndo ao mar para procurá-lo quando vimos uma delas carregando com dificuldade o garoto nos braços.
Ela nos sorria e trazia o rapaz nos braços, tentando ainda brincar com ele. Certamente não o sabia morto e veio entregá-lo para que pudesse partir, já que suas amigas se haviam ido. Ele devia ter se aventurado mais fundo do que podia agüentar. Talvez tivesse desmaiado durante o mergulho, talvez seu tímpano tivesse estourado pela pressão excessiva (seu ouvido sangrava um vermelho aguado quando o acolhemos), talvez tivesse simplesmente calculado mal o tempo de subida e, sem socorro imediato, não teve chance de recuperação. A névoa havia contribuído para que demorássemos a notar a sua falta.
Um de nós estava morto.
A pequena criatura que o rebocou até o raso não parava de sorrir, o que dava um ar sinistro à situação, muito embora agora adotasse um aspecto assustado com nossas reações e com as perguntas que fazíamos, às quais ela ouvia atentamente, como se prestasse atenção ao latido de um grupo de cães. E continuava a sorrir um sorriso medroso. Certamente não compreendia como o rapaz havia morrido. Se isso compreendia, não compreendia a morte. E se a morte ela compreendia, não compreendia em definitivo a dor. Pegamos o garoto de suas mãos com as ondas batendo em nossas costas. Alguns, já apavorados, queriam trazê-la também para a areia, com certeza para interrogá-la ou vingar-se. Eu e mais um a libertamos e a assustamos para que partisse com rapidez, o que ocorreu.
6.
O que se seguiu foi o ritual escandaloso que promovemos quando somos bruscamente lembrados de que um dia nós próprios vamos morrer. Espetáculo patético e exagerado, o funeral é uma comédia encenada tragicamente.
Nos dias que se seguiram fomos proibidos de ir à praia por mais de um motivo: por respeito ao morto, para guardar o luto de um amigo e, principalmente, para não encontrá-las, elas que levavam agora a culpa de tudo nos comentários de todos, até mesmo de alguns de nosso próprio grupo. De minha parte, achei mesmo bom que tal proibição ocorresse, pois temia uma represália, da qual elas seriam vítimas dóceis.
Uma semana após o ocorrido, fui à praia esgueirando-me pelos quintais antes do nascente. Vi ainda e pela última vez minha namorada e suas companheiras em seu ritual matinal: aquele coro de vozes estridentes e divergentes, o timbre que pertencia mais ao reino das feras que ao humano, seus corpos iluminados pelos tons quentes da alvorada, as sombras deitando-se longas na areia, os contornos do corpo que algumas vezes beijei, agora perdido na pouca distância de algumas dezenas de metros.
Distanciavam-se umas das outras quando ouvi um disparo. Para minha surpresa, elas continuavam se distanciando lentamente, olhando para um ponto fixo no chão. Ouvi outro disparo e desta vez gritei, tentando assustá-las para que fossem logo embora. Minha voz só alcançou a minha pequena morena, que despertou de seu transe. O terceiro tiro veio logo em seguida e atingiu uma delas, loira, que tinha agora o dourado dos cabelos manchado de um vermelho grosso. Saí correndo em sua direção mas me impediu um quarto tiro que atingiu as costas da minha coxa esquerda. Caí e fiz sinal para que fossem logo embora. Conseguiram arrastar a amiga ferida com dificuldade para dentro d’água. Houve ainda um quinto tiro, e um sexto, mas estes já tinham a areia como alvo e eram apenas de advertência. Deixaram-me sangrando na praia.
Devo ter desmaiado, provavelmente por causa da hemorragia, pois minha próxima lembrança é a de estar sendo enfaixado. Logo depois fui mandado embora da vila sob a acusação de ter agido em favor delas, crime que não figura em nenhum código penal, mas que fazia sentido à gente que me condenou.
Surpreende-me até hoje que meus pais não tivessem recorrido desta decisão, mas naquele mundinho nada é estranho o bastante.
7.
Anos mais tarde, retornei à minha praia, com a esperança de poder lá viver, imaginando que havia expirado o prazo de meu banimento. Durante as primeiras semanas não toquei no assunto que havia causado meu exílio mas, com o passar do tempo e com o reatar dos vínculos com meus antigos companheiros, pude novamente tocar na ferida cuja cicatriz em minha perna esquerda era apenas o símbolo.
A acolhida que recebi de meus antigos colegas não foi, no entanto, calorosa, variando de simples sorrisos de quem admitia ainda lembrar de meu rosto ao desdém de outros que certamente ainda encontravam, no mesmo rosto, a culpa dos acontecimentos passados. Todos eles concordavam, no entanto, em evitar o assunto. Não se falava mais nelas como se trazer à tona lembranças fosse desencadear um processo de catarse violento.
Era certo, no entanto, que elas haviam sumido daquelas praias. Na noite alta, às vezes sob efeito de algumas doses da aguardente local, alguém conjecturava que haviam partido para latitudes mais amenas. Outros faziam referência ao acidente e concluíam que teriam partido em busca de praias menos habitadas.
Um de meus antigos colegas que era agora mateiro e vivia da caça do javali me contou, à beira de uma fogueira de acampamento, que havia decidido desde então nunca mais entrar no mar ou pescar, nem tampouco alimentar-se de peixe já que, pensava agora, nada que viesse do mar poderia lhe fazer bem ao corpo ou espírito. Contou também, dias depois, que não passava uma noite sem sonhar com os beijos escorregadios da sua namorada e que não era raro acordar acreditando ouvir a sua voz.
Outro tornou-se pescador. Taciturno, falava pouco e não lembro de tê-lo visto sorrir. Uma vez me confidenciou que elas eram, na verdade, seres demoníacos, que vinham nos visitar a fim de nos seduzir com promessas de um amor impossível e portanto nefasto (por promessa, entendi que se referia ao riso e à sensualidade que exalavam sem querer, já que eram incapazes de promessas de outro tipo). Dizia também que eram uma espécie de tentação, que jamais deveríamos ter convivido com estas abominações, que tínhamos sido amaldiçoados com o seu convívio e principalmente com a sua lembrança. De vez em quando interrompia seu discurso desconexo e quase religioso com um súbito movimento da cabeça, desviando o olhar, como se tentasse ouvir algo quase imperceptível.
Fui à casa de um terceiro companheiro. Sua esposa me recebeu com o sorriso tímido de quem me reconhecia dos tempos de criança. Contou-me que ele havia se tornado ceramista e que, a partir de uma certa época, tinha desenvolvido um sonambulismo severo. Sorriu ao lembrar que ele sempre voltava no meio da madrugada com os pés molhados de água salgada. Logo depois chorou sem tirar o resto de sorriso dos lábios. Explicou-me que não voltou de um de seus passeios noturnos há uns dois anos. Entrou um pouco e quando voltou trazia uma figura de barro de uma mulher com cauda de peixe, com a qual me presenteou. Fiquei sem saber se a escultura era uma praga ou um presente. Para mim, preferi a segunda opção. O sorriso choroso e aterrorizado que ainda tinha quando fui embora me fez lembrar o daquela que veio nos trazer o rapaz morto anos antes.
Parti de sua casa e da vila percebendo que não tinha mais nada a fazer por ali. Voltei para a cidade na qual passei o meu exílio.
8.
Aliás, dos anos de exílio lembro-me pouco, talvez por ter sido uma época de dor e de esquecimento. Lembro de estados de nervosismo e de calma extremos que se alternavam, de injeções periódicas e do rosto de dois ou três funcionários que cuidavam da multidão de alienados que morava comigo. Nesse período lembrava-me constantemente de minha namorada, do dia da morte de meu colega e dos tiros na praia. Lembrava-me especialmente dos rituais matutinos, do grupo iluminado de laranja, projetando longas sombras sobre a areia; daquela que nos trouxe o rapaz afogado tentando brincar ainda com seu corpo já morto.
Cheguei a me sentir incomodado com o descaso delas com a dor alheia e com a morte, mas ao longo de nossa convivência percebi que não tinham consciência da dor, de sua causa ou sua conseqüência. Não sentiam pena e não tinham nenhum pesar também na morte: tinham tudo o que precisavam para viver; eram belas e sempre tinham a nossa atenção e nós as acompanhávamos sempre, e elas estavam conosco mesmo em nossos sonhos, e sentiam nossa falta (talvez como um gato que vê afastar-se o seu novelo de lã). Ou seja, eram seres simples. A reação que tinham, pensei, era mais próxima da de Deus ou da natureza, que não se importa se alguém morre ou sofre — o que não as impedia de sentir, mas de julgar o sentimento. E havia mesmo algo divino ou sobre-humano nisso.
Com o tempo, aprendi a ver beleza mesmo nesse descaso, nesta ausência de caráter ou de piedade que caracteriza a natureza, a proximidade com a simplicidade da criação, essa entrega incondicional à vida, ao momento e à vontade.
Saindo de minha internação, fui trabalhar como contínuo num jornal de bairro e, aos poucos, acostumei-me a viver sem os cuidados dos funcionários, sustentando-me do salário que recebia.
A ideia de voltar ao meu vilarejo veio depois. Ao retornar da visita, voltei a trabalhar no mesmo jornal em que havia me empregado.
9.
“Sereias” eles dizem, sem saber a que se referem, querendo apenas acabar a discussão com a invenção de um nome. As poucas pessoas às quais contei estes fatos perguntam-me frequentemente do tal canto das sereias.
Confesso que nunca percebi nada de extraordinário no canto da minha namorada ou de outra qualquer. Eram melodias simples, ditadas mais pelo acaso que por qualquer ardil, algo que cantarolavam sem se dar conta. Só poderiam ser mesmo especiais as tais frases musicais se considerarmos o acaso como o maior dos poderes, o que, aliás, não é assim tão absurdo; as coisas às vezes se passam como se o acaso fosse o único autor, o único músico, o único escritor, o único leitor. Se assim é de fato, o assobio de uma lavadeira é mais misterioso que qualquer sinfonia clássica — e, de certo modo, é.
Se me perguntassem — mas isso, justamente, não me perguntam — sobre o poder de atração que lhe é atribuído, diria que vem antes do fato de fazer lembrar a cantora que de trazer, por si só, alguma senha aliciadora, alguma chave inconsciente. Quem já viu uma sereia não se importa com o seu canto, mas com a sua existência. Só entre ignorantes poderia surgir essa preocupação com o caminho que toma cada melisma ou se sua melodia era ou não modal, como se ali houvesse a indicação de algo secreto ou demoníaco!
E afinal, o que é o “canto da sereia”? Ninguém sabe a esse respeito. Por isso exatamente perguntam! Não sabem mas dizem saber, já que esperam que seja isso ou aquilo.
Digo novamente que nunca vi um centauro, mas me pergunto se, o vendo, o saberia centauro.
Você que agora ouve o burburinho da rua, ou um violão dedilhado no silêncio, o seu filho resmungando ou o barulho de nuvens se ajuntando, tem certeza de não estar também ouvindo o canto da sereia?
Eu não.