Notas de um antropólogo cansado: Parte 1

Os caminhos que a antropologia tomou em seus primeiros passos determinaram, de certa forma, as situações pelas quais passamos hoje. Mesmo o meu depoimento sobre a história da antropologia, sobre os seus relatos, interpretações e cadernos de campo estão tão impregnados com a poeira levantada por estes passos passados e longínquos, que vale a pena contar a história da antropologia juntamente com minha própria, para que os devidos paralelos críticos sejam feitos. Pensar que alguém pode, a título de abertura de um relato de campo, expor toda a história da antropologia é evidentemente uma atitude ingênua. No entanto, pretendo expor os fatos capitais, a linha que fez com que uma ciência em seus primeiros passos tomasse o rumo que tomou, rumo o qual fui obrigado a seguir. É dever meu, portanto, começar esta pequena história, afirmando desde já que não existem fatos, mas somente interpretações dos fatos. A culpa dessas interpretações, no texto, é certamente minha.

1.

É coisa notória que, desde sempre, o homem, por vários motivos, tem tentado impor sua vontade sobre o mundo e sobre as suas partes, dominando plantas, animais e outros homens. Chegado o tempo propício, a tecnologia para grandes travessias marítimas e algum conhecimento de armas e técnicas de guerra, e o cenário estava pronto. Os atores agora poderiam entrar no palco e fazer o que deveriam fazer: colonizar e subjugar o resto do mundo, lançando-se em grandes aventuras e expedições.

No início chegavam pesquisadores, comerciantes e embaixadores, depois exércitos inteiros se arrastavam por desertos, mares e montanhas para chegar aos confins de terras estranhas, para conquistar e escravizar os povos que encontrassem pelo caminho. Novamente um povo (ou um conjunto deles) lançava-se a terras estrangeiras em busca de mais recursos; a diferença é que dessa vez a expansão alcançou proporção mundial. Se alguém pudesse olhar o mundo de cima como o faz um deus, teria visto estes conquistadores esparramarem-se sobre o globo como uma mancha de café num lençol de linho. A mancha ia se espalhando como que levada por sua própria inércia, por sua própria índole. Em resumo: o expansionismo era a vocação mais clara das metrópoles.

Como sempre, a guerra e o comércio traziam brinquedos novos em seus bolsos. Grandes barcos, máquinas de guerra, novos materiais, medicamentos, costumes vindos de terras distantes, tudo isso ajudou um mundo ainda em sua adolescência a atingir uma certa maturidade — talvez a falsa maturidade da qual os jovens freqüentemente se orgulham — e algum desenvolvimento tecnológico. As histórias dos contatos entre estes povos em estágios de desenvolvimento tão díspares eram sempre uma fonte de informação disputada para quem se interessava pelo fenômeno humano: histórias curtas de acontecimentos macabros e misteriosos, em línguas, dialetos e variantes incontáveis; mitologias e sagas enormes, que contavam centenas de partes; descrições de animais magníficos, os quais antes só habitavam a imaginação e o sonho; histórias da criação do mundo e de romances entre deuses; enfim, um sem número de relatos que chegavam aos países invasores como chegavam os produtos das pilhagens e do comércio.

 

Mas, afinal, como nasce uma ciência? Ingênuos aqueles que a imaginam brotar de um laboratório ou mesmo de discussões acadêmicas. Uma ciência, como coisa própria do homem, nasce, ela mesma, da natureza humana, da curiosidade não em sua dimensão especializada, mas em sua face vulgar e cotidiana.

O interesse que veio mais tarde a definir a antropologia nasceu de um interesse mais generalizado pelo pitoresco que o contato com estes povos proporcionava. Desde o início, a procura pelos relatos de viagens era prerrogativa tanto de estudiosos acadêmicos como das mocinhas da corte e de mascates, que tinham algum prazer circense em ouvir histórias bizarras. É fácil antever que, havendo um mercado para tais histórias, havia quem se dispusesse a traze-las de longe. Em pouco tempo, a demanda tornava-se grande demais em relação à disponibilidade, e foi então que alguns se dispusessem a criá-las de próprio punho: povos e situações fictícias que servissem não mais ao registro da realidade, mas ao enredo dos romances de ficção. Este é o fato capital para a antropologia de nossa época: o fato de termos suportado e até mesmo aceitado com benevolência a infiltração da ficção em nosso trabalho. A ficção e os cadernos de campo entram simultaneamente, às vezes misturando-se dentro de um mesmo texto, na vida dos leitores ávidos de experiências exóticas, resultando num emaranhado de referências e citações de caráter pouco verossímil, mas nem sempre de todo mentiroso.

2.

O começo da aventura antropológica é marcado, portanto, com a confusão, como de resto o é toda a ciência em sua infância. Mas não só a confusão causada pelas indefinições na emergência de um novo campo do conhecimento, mas também pela mistura entre o que era, de fato, material genuíno de estudo e o que era material forjado, às vezes, pelos próprios exploradores e antropólogos.

Um deles, cujo nome prefiro não revelar, gerou uma série de relatos fantásticos sobre povos que havia “descoberto”, mas estes relatos eram tão extraordinários que hoje preferimos situar a maior parte de suas referências em sua própria mente pois, feliz ou infelizmente, o mundo real não se mostrou tão pródigo na arte de gerar maravilhas quanto a imaginação deste homem. É verdade também que alguns de nós, ainda hoje, seguem pormenorizadamente os caminhos da rota da seda, descritos em seus cadernos de anotações, a fim de reviver, nos confins do planeta, alguns de seus encontros com os povos maravilhosos que descreve, tornando assim a antropologia uma espécie de paleontologia ocupada de registros dispersos, lugares e povos improváveis.

Outro de nossos colegas teria afirmado encontrar vestígios da viagem de Jasão nas ilhas da Polinésia, o que constitui, obviamente, um absurdo. Deste trabalho só nos chegou às mãos o título e uma dúzia de páginas em garranchos ininteligíveis, os quais misturam inglês e polonês. Discute-se ainda hoje se esse pedaço de papel foi realmente criado pelo eminente estudioso ou adulterado a fim de criar uma aura de suspense e exotismo em torno de seu criador. O leitor pode se perguntar o quanto vale hoje este pedaço de papel amarrotado, convenientemente exposto num museu, disponível aos olhos de milhares de visitantes.

Este nefasto costume da alteração de originais e da falsificação de relatórios que acabou por denegrir a imagem da antropologia junto às outras ciências causou também, a longo prazo, um amontoado de falsas referências, de desconfiança de fontes, de acaloradas discussões acadêmicas e de mútuas acusações entre antropólogos antes respeitados, sobre os quais hoje pesa certa incerteza.

Senti já este peso em minhas próprias costas, quando trouxe de longe um estudo sobre um povo que perdeu o dom da escrita, ou quando, depois de meses acampando, sujeito ao mais rigoroso inverno, atrevi-me a dar testemunha de um manuscrito que encontrei ao lado de um casal de cadáveres estrangeiros. Temo sofrer novas acusações sobre o texto que seus olhos agora contemplam…

Mesmo acreditando serem infundadas tais acusações, depois de tantas acareações e tantos interrogatórios, já não estou tão certo quanto já estive sobre minha imparcialidade. O problema, penso eu, já não se situa em verificar quando um antropólogo desejou deliberadamente tornar ficção uma história, mas se, mesmo sem intenção, a contaminou com sua subjetividade. Se é este o problema, como já afirmaram, sou provavelmente culpado, como também o são todos os meus colegas e, no todo, a própria etnografia. Também o são os leitores destes relatos já que existem tantas versões de um livro quantos forem seus leitores. Um certo senhor americano, de nome Geertz declarou recentemente que só é possível produzir “facção” (um neologismo que pretende misturar “fato” e “ficção”), e que a ambição de um relato isento deve ser, de todo modo, descartada desde o princípio. Se levarmos esse senhor a sério, a distância entre antropologia e literatura é computável em zero, e tudo o que podemos esperar de um caderno de campo é que seja bem escrito e que prenda nossa atenção.

Assim, os acontecimentos que circundam toda essa história de adulteração de relatos e de ficções antropológicas agora geram o seu desfecho criando o seu contrário. Eu, que muitas vezes fui à terras estrangeiras, arriscando integridade física e mental, enfrentando a privação de todas as comodidades da vida na metrópole, eu que me recusei a seguir o destino de antropólogo de escritório, fazendo trabalhos sobre a vivência de campo de outros, hoje sou impedido de trabalhar em minha ciência e privado de meu sustento como parte do corpo acadêmico. Ao mesmo tempo sou tentado a dar início a esta modalidade de relato, à qual alguns chamam, talvez ironicamente, de antropologia ficcional (talvez uma versão radical do que o citado antropólogo americano apregoa), a qual trata de analisar mundos e culturas jamais existentes, mas de todo modo possíveis.

Como já disse, sofri várias acusações a respeito dos textos que compõem este caderno de campo. Tento apresentá-lo como caderno de campo e não como um ensaio justamente para fazer diminuir o peso que minha opinião pode exercer sobre meu relato.

Para terminar, sugiro ao leitor a seguinte questão: é realmente necessário que esta ou aquela situação objetiva tenha existido de fato, no campo, para que seja feita uma boa interpretação dela? Não poderia haver mérito em ensaios teóricos elaborados sobre relatos ficcionais? Um ensaio que se faz sobre fatos ficcionais é necessariamente um ensaio sobre literatura, ou pode ser um bom ensaio antropológico? Assim como a literatura investiga não o que é o ser, mas as suas possibilidades, talvez a antropologia poderia investigar não o homem que existe, de fato, mas as possibilidades do homem que não existe no mundo lá fora, mas que poderia existir.

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Rui Alão
Rui Alão
Artigos: 25

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