Da Amizade

Para o amigo Marcos Câmara

1.

Alguns pontos começavam a povoar o horizonte. Em pouco tempo eram centenas de navios romanos desembarcando, perto do estreito de Corinto.

Entre milhares de legionários, desceu da embarcação com uma pequena escolta e pediu informações:

— Como é mesmo o nome do chefe da guarda de província?

— Gerontius, general.

— Traga-o aqui.

Em um instante, o encarregado estava frente ao general:

— Ave! É uma honra servir a Stilico em pessoa. Nunca pensei que…

O general Stilico puxa-o pelo braço até a sombra de um carvalho.

— É… Gerontius, não é?

— Sim, general.

— Aquela fumaça escura vem de Corinto, Gerontius?

— Sim. Infelizmente.

— O que houve com a passagem das Termópilas? Não houve nem mesmo uma batalha? Nossos soldados foram subornados?

— Ao que parece, general, os que estavam em serviço nos Portões eram visigodos, homens de Alarico que, à sua passagem, juntaram-se a ele.

— Não bastassem os subornos de Roma, agora mesmo os legionários os aceitam. Aprenderam com os bárbaros, talvez!

Gerontius permaneceu calado, com a esperança de que as reclamações do general não fossem contra ele. Após algum silêncio, o general continuou.

— E o que sobrou do nosso exército? Qual parte ainda conservamos?

— Bem pouco. A guarda do império, em Constantinopla, com a qual obviamente não podemos contar, e quatro ou cinco legiões em Adrianopla, sob meu comando, senhor.

— Todo o resto desertou?

— De certo modo. As legiões se mantiveram fiéis ao homem que as comandava. Como esse homem voltou-se contra o império, seus comandados o acompanharam. Sob este ponto de vista, o único a ter desertado foi Alarico. O rebanho apenas seguiu o seu pastor.

— E como não os fizeste ver que devem ser fiéis não a um homem, mas ao próprio império?

— Difícil, senhor. A maioria deles não sabe o que significa “império”. Seguem o que vêem. E viam apenas Alarico. É triste, senhor, mas é a realidade.

— E o que os faz fiéis a um único homem em vez de permanecerem com o exército que os ensinou a guerrear? O que tem esse visigodo de tão especial? Com quais mentiras convenceu um contingente tão grande?

— Não sei dizer com certeza, general. Parece que os alicia com promessas de reinos cheios de riquezas. Ao menos, isso é o que contam.

— E Corinto, como está? Podemos contar com seus homens como nossos aliados?

— General… não sei como dizê-lo mas… não há mais homens em Corinto. Não existe mais Corinto.

2.

As dificuldades envolvidas em manter um império de enormes proporções levaram o imperador Augusto a recomendar a seus sucessores que mantivessem inalterados seus limites: a leste o Eufrates, ao sul os desertos africanos, a oeste o Oceano Atlântico, e ao norte o Reno e o Danúbio.

Cerca de quatrocentos anos mais tarde, esta última fronteira estava sob o comando de Alarico, chefe de um exército de visigodos a serviço do império, quando o pagamento das tropas, vindo de Roma, foi desviado a caminho do Danúbio. Cansado de lutar sob as ordens de um império indolente, Alarico reuniu algumas dezenas de milhares de compatriotas visigodos às legiões que já comandava e voltou-se contra o próprio império romano, destruindo e saqueando as cidades da Tessália, Beócia e Fócida, e depois atravessando o estreito de Corinto em direção à Acaia.

Pouco antes, o império acabara de ser dividido entre os filhos do imperador Teodósio: Honório, ainda criança, foi feito imperador do oeste e Arcádio, também excessivamente jovem, do leste. Stilico, general de Honório, decidiu intervir com seu exército nos domínios do leste a fim de expulsar os invasores godos, não podendo, no entanto, contar com o apoio de Arcádio, já que este temia que o avanço de Stilico pudesse significar também a sua própria deposição.

3.

Corinto.

Já não havia nada ali. Seus muros estavam destruídos, suas casas, o mercado, tudo. Mal se podia entrar na cidade, que cheirava ainda a queimado e a carniça. As poucas pessoas que foram vistas eram mulheres e velhos. As crianças, haviam sido assassinadas também, aparentemente sem motivo. As poucas sobreviventes vagavam pela beira da estrada, feito espíritos lentos e esfarrapados. O general, acostumado às guerras e à carnificina, chegou a se deixar impressionar quando viu uma mulher ainda nova tentando amamentar uma criança visivelmente morta. Nem mesmo as choupanas dos campos foram poupadas. As plantações haviam sido queimadas. Via-se gado chamuscado pastando nas encostas. E corpos por toda parte, espalhados, sem ordem, ao pé das estradas. As vítimas eram homens do campo, que nem mesmo haviam se preparado para a guerra. A chegada dos invasores parecia ter sido rápida o bastante para pegar desprevenidos os moradores. Este e outros fatos apontavam para o uso de cavalaria pesada por parte dos godos. Às vezes, durante algumas léguas não se via nada, nem corpo de homem nem de animal, nem casas queimadas. Então, depois de uma curva, tudo voltava: grupos esparsos de corpos, casas e campos negros ou ainda em brasa.

E Argos não foi diferente.

Desde o início a curiosidade a respeito da personalidade de Alarico e seus homens tomava conta da imaginação das tropas romanas e, de modo especial, a de seu comandante.

Os visigodos eram conhecidos pela sua ganância. Ao cercar uma cidade, esperavam pacientemente pela chegada da fome e da sede, para então saquear o que encontrassem pela frente. Poucas vezes matavam. Só roubavam tudo o que encontravam.

Por que então teriam eles assassinado a Arcádia e a Lacedemônia? Atenas já havia dado o que tinha e o resto não tinha muito a oferecer. Se não era o ouro, o que poderia estar movendo aqueles soldados?

E seu chefe? Teria abandonado um cargo importante no comando das legiões de fronteira para invadir uma terra fria, montanhosa e pobre. Para quê? E com que promessas tinha conseguido fazer com que dezenas de milhares de legionários desertassem?

4.

Pouco antes da aurora, Stilico recebe notícias dos postos de vigia ao sul; um grande deslocamento de tropas inimigas em direção sudoeste.

Stilico apoia a mão direita na mesa à sua frente; com a esquerda esconde o rosto:

Mande recolher acampamento. Vamos em paralelo.

As trompas foram ouvidas por toda a fortificação, logo seguidas pelos ruídos do desmonte e das ordens dos centuriões. Em pouco tempo estavam todos em marcha.

O caminho serpenteava entre escarpas, cujas sombras se projetavam em direção ao poente, onde o azul tornava-se gradualmente mais claro. Em contrapartida, no leste, a aurora vibrava calmamente os tons matinais, iluminando indistintamente godos e romanos, em suas marchas compassadas.

Entre os guerreiros do império, chamavam-se romanos tanto os gregos quanto os macedônios, cretenses, espanhóis, cartagineses e celtas; até persas e egípcios havia; e godos, alguns parentes dos inimigos. Todos homogeneizados pela língua, o latim das legiões, o qual eram obrigados a usar em serviço. Quantos bons combatentes tiveram seu ingresso nas legiões negado pela falta de habilidade no uso das declinações!

E, no mais, o que transformava este contingente num exército era a disciplina. Era voz comum que um legionário deveria temer mais seus superiores que os inimigos, e era esta a realidade.

O general, que aproveitava a marcha para instruir seu filho mais velho nas artes da guerra, saía agora do alcance dos raios de sol, abrigando-se sob um casaco de pele de carneiro, enquanto descia em direção ao próximo vale.

5.

O mensageiro chegou e interrompeu a ceia de Stilico:

— Ave, general!

— Ave… o que houve?

— Surpreendemos uns poucos ladrões quando tentavam roubar mercadorias de um negociante a caminho de Constantinopla. Mas, se o senhor quiser, volto quando tiver terminado a ceia.

— Prenderam todos? O que esse louco vem fazer aqui? O que os cristãos não destruíram os godos tomaram! Veio vender aos gregos, que mal têm o que comer?

— Matamos, senhor. Penso que não haverá ainda algum que se preste a um interrogatório…

— Não há mérito algum em interrogar alguém que já se sabe morto — pensou, sério, sem tirar os olhos da ceia — E o que traz o negociante?

— Ao que parece, peças de metal e pequenos ídolos de ouro e prata. Mas há mais, que não chegamos a ver.

— E o que te parece? Valem muito, esses ídolos?

— Penso que sim, general. Além do mais, foi precisamente este valor que atraiu o grupo de godos a deixar seu exército, e não me parece que esses godos tenham faro ruim para valores…

— Tens toda a razão. E esse mercador, andava sem escolta? Não são muitos os mercadores que têm por costume viajar numa província em guerra sem escolta!

— Tinha, senhor. E era numerosa. Quase toda se foi; os que não morreram fugiram durante a emboscada, segundo nos contou o grego. Sobraram uns poucos.

— Que grego?

— O mercador, senhor, é grego.

— Ah… Vê, como não se pode confiar a própria segurança a um estrangeiro? Sinesius apenas repetiu ao imperador o que ouviu, mais de uma vez, de minha boca.

— Mas a escolta era de romanos, senhor, disse o mensageiro, em voz baixa.

— Como sabes? O tal grego o afirma? Desde quando confias nesses gregos?

— Não, senhor. Vi os cadáveres da escolta: dois deles haviam servido comigo em Adrianópolis. Eram romanos, foram legionários, tenho certeza.

— Tivemos muitas baixas?

— Na verdade, nenhuma, senhor. Quando chegamos, a luta já havia arrefecido. Encontramos uns poucos godos moribundos ou fugindo. Ao serem capturados, gritavam algo em macedônio ou em alguma língua do Cáspio. Foram, no entanto, silenciados pelas espadas da pequena escolta que restou.

— Mande vir a mim alguém dessa escolta que fale latim decentemente.

— Dos que restaram, o grego é o que melhor se expressa em latim. Talvez o único. Da escolta original restaram apenas uns quinze ou vinte macedônios e gregos. E para cada um que está agora de pé, há outro que já é sombra. Alguns trazem o antigo sinal do lambda nos escudos, usados pelos lacedemônios.

— Que seja o próprio grego então. Imagino que queira nossa proteção até o seu destino…

— De fato, ele pede uma audiência com o senhor.

— Que venha — disse, levantando-se, ao fim da ceia. — Mas não sejamos rudes com o nosso hóspede: dá-lhe o que comer e aos que o acompanham. Quando estiver satisfeito, que me procure em minha tenda. E diga que, se segue a religião antiga, se demore mais nas libações, pois hoje escapou da morte!

6.

— Ave! Que Arcádio tenha uma vida longa e cheia de venturas! — disse o grego, ao entrar na tenda, sem ser anunciado.

Stilico, tomado de surpresa, vê o rosto sorridente do mercador e responde, bem humorado:

— Se Fortuna for para ele metade do que foi para ti hoje, Arcádio conhecerá meus netos!

Assentindo com a cabeça e sorrindo, o mercador responde, escolhendo as palavras:

— Que eu possa dividir com o general a proteção de que pareço estar gozando, muito embora, como já foi dito, os deuses só protejam aqueles que os reconhecem e honram. Sendo assim, venho pedir ao general que me permita acompanhá-lo, ainda que de longe, pois temo não poder cumprir o trajeto até meu destino, desfalcado de minha escolta.

— Antes, porém, de falarmos de guerra e segurança, falemos de outros assuntos. Não é verdade que na Grécia deve-se beber vinho diluído antes de tratar de qualquer tipo de negócio? Lembro-me que mesmo Odisseu seguia este costume. 

— Aceito com prazer. Se fui direto ao assunto, foi antes por temor de tomar o tempo do general com meus interesses. Além do mais, devo confessar que não esperava tal disponibilidade por parte de um general de Roma.

— Sou homem de maneiras simples… segundo minha mulher, simples demais. Fui cavalariço quando criança, no exército. Praticamente nasci dentro das legiões — disse, enquanto serviu, ele mesmo, um copo de vinho ao grego.

— Todos os homens têm a mesma origem, de certo modo…

— Tens mesmo um bom latim. Chego a pensar que foste educado entre romanos… Onde aprendestes?

— Quando se tem o ofício de mercador, é preciso conhecer várias línguas, tanto para fazer negócio quanto para não ser enganado.

— E vejo que aprendeste bem. Deves negociar bastante com os romanos.

— Na verdade, exclusivamente com eles. Tenho alguns barcos em Pilos e faço freqüentemente a travessia para Crotona. Antes negociava também com os Cartagineses, mas…

— Qual o teu nome?

— Chamo-me Hipófobo, de Pilos.

— A Pilos de que falas é a da lenda, a Pilos arenosa, de Nestor?

— Conheces a história? — perguntou o grego, entusiasmado.

— Conheci ainda jovem. Como podes ver, nem todo homem de armas é um iletrado…

— General, jamais insinuei…

— Fica tranqüilo — disse amistosamente o general — fiz apenas uma provocação. É comum os gregos sentirem-se como mestres dos romanos em sabedoria e cultura. Estou farto de encontrar encrenqueiros que dizem descender de Menelau, Ajax ou Aquiles e, com isso, justificar seus atos.

O mercador permaneceu calado.

— Não é esse o teu caso, não? Ou vens, como todos os outros, de alguma família ilustre dos tempos de Odisseu?

— Minha linhagem remonta, segundo se conta, a Diomedes.

— Segundo se conta… tens razão: nada há de seguro em relação às linhagens. Eu mesmo me orgulho de ser metade romano e metade vândalo. Mas não te incomodes; não tomes meus resmungos em relação aos gregos como ofensa.

— Não me ofendi, senhor. Quando um povo domina outro, ocupa suas terras com tropas, impõe sua língua aos habitantes, esses choques são normais. É difícil para qualquer povo estar na posição do dominado. Quando o mar pertencia à nossa península e não à vossa, quando éramos nós a fundar colônias no que hoje chamam de Lácio, tínhamos os mesmos problemas — disse o grego, com algum desdém.

— Vejo agora que és mesmo grego! Parece que toda a tua pátria se assemelha, em certos traços de personalidade — disse o general, perambulando dentro da tenda — Mas não vou faltar com a hospitalidade que a regra impõe. Mesmo porque encontrei em ti um bom interlocutor e divirto-me em tua companhia.

A fala do grego tornou-se aflita e hesitante, quando percebeu que não havia sido prudente com seu anfitrião.

— Não foi minha intenção, general, ofender a honra romana; apenas lembrar que os problemas que hoje os romanos enfrentam aqui, um dia nós enfrentamos em nossas colônias, tanto na direção do nascente quanto na do poente. Em todo caso, descuidei da honra que devo ao senhor, como hóspede e devedor da própria vida. Peço-lhe que perdoe minha língua, que às vezes não se contém quando deveria.

— Não te aflijas… Fiz uma provocação, a qual merecia alguma resposta. Se a deste de forma um tanto mordaz foi por teres amor à tua origem e à tua gente, e isso é antes um mérito que um defeito. Admiro mais um homem como tu, impulsivo mas sincero, que os falsos e aduladores. Destes tenho aos montes e não encontro neles conversa para mais que duas frases… Tens a minha permissão para seguir-nos em viagem, desde que tenhamos destinos semelhantes… qual o teu destino?

— Pilos, general. Estou voltando à minha casa.

— Pois está bem. Podes seguir-nos enquanto mantivermos a mesma direção, e podes fazê-lo de perto. Tivemos ambos um dia cheio de tribulações e merecemos descansar. Peço que te recolhas, pois farei o mesmo. Amanhã levantaremos acampamento cedo.

— Assim seja. Bom descanso, general.

— Te desejo o mesmo.

7.

No dia seguinte, já em marcha, o general manda chamar o grego para que cavalgue ao seu lado.

— Como foi tua noite, grego? O barulho do trabalho te deixou dormir? Em geral, os que não conhecem o cotidiano de um acampamento não dormem ou têm o sono turbulento.

— Pelo contrário. Ontem fugi da morte mas não escapei de seu irmão…

— Irmão?

— Perdão… Hypnos. Thanatos e Hypnos são irmãos. A morte e o sono. É comum dizermos que não se escapa dessa dupla. Hypnos nos persegue diariamente e nos envolve, mas depois liberta para outro dia de trabalho. É um menino e quer apenas brincar. Thanatos é mais velho: nos persegue uma única vez e, quando nos alcança, não nos libertamos com tanta facilidade.

— Que eu seja então como Thanatos para Alarico.

— Se ele não for Sísifo! — gargalhou o grego.

— Sísifo, o embusteiro?

— Sísifo, aquele que conseguiu, algumas vezes, enganar Thanatos, enganar a morte.

— Então tu é que és Sísifo. Esqueceste de ontem?

— É verdade. Não posso nem me lembrar da agonia de estar nas mãos daquele grupo de saqueadores. E minha família? O que fariam a ela?

— Não terás de descobrir, grego. Fica tranqüilo…

O mercador sorri para o general, que continua:

— Fico feliz que tenhas aprontado tuas coisas a tempo. Não me demoraria por ti.

— Ah, mas sou eu quem tem que acompanhá-lo, general. Para isso, não dormiria se fosse preciso. Não quero me arriscar a encontrar-me com eles novamente.

— E o que ouviste sobre eles?

— Quase nada. São poucos os que restam depois de uma invasão; e destes, poucos têm ânimo… ou língua para falar.

— Imagino o que leva um contingente dessas dimensões a fazer o que foi feito em Corinto. E para que invadir a península até a Lacedemônia? Não há nada lá, além de homens e algum gado. Primeiro, pensei que queriam transformar toda a população da Grécia em escravos, para vendê-la aos persas. Mas, depois do que vi em Corinto e na Argólida, vejo que os homens, ao invés de viverem como escravos, são mortos. Todos.

— Penso que só há um motivo, quando o ouro e a lascívia estão fora de questão: a fé. Alarico é conhecido pelo seu fervor religioso. A multidão que o segue o faz com dedicação igual: é um exército de malucos, desesperados, fanáticos. Para eles, quem não é cristão deve morrer pela mão de um, como infiel.

— Não posso crer que estejas certo, grego, mas tampouco tenho outra hipótese.

8.

Antes do crepúsculo, montaram acampamento numa planície, ao lado do Eurotas.

Na ceia, Stilico mandou chamar novamente o grego.

— Ave, general.

Hipófobo encontra Stilico com dois de seus centuriões, com um pequeno mapa aberto, discutindo táticas.

— Aproxima-te, grego. Vem cear conosco.

— Não desejo atrapalhar. Voltarei mais tarde.

— Deixa de bobagens. Aliás, conheces melhor a região de teus antepassados do que nós. Explique-nos como é esta região aqui. — e apontou um lugar do mapa.

— Um pouco escarpada. Mas, uma vez atravessado este grupo de montes, o terreno fica plano até o mar. Conheço a estrada que leva até lá. É possível de ser usada, se não foi obstruída pelos godos.

— E se foi, podemos reconstruir o que falta rapidamente. Há alguma ponte importante?

— Não. Existem pontes aqui e aqui, mas são pontes pequenas. Lembro-me do tempo em que atravessávamos este riacho, quando não havia ainda ponte. Além disso, nesta época do ano, estão sobre riachos secos. Não se preocupem.

— Então é por aí que iremos. Sorte tua, grego, a rota aponta para teu destino: Pilos.

Depois de algum tempo, os centuriões que acompanhavam Stilico retiraram-se.

— Temos que contar com os estragos que esses godos podem ter feito no percurso. Se damos com uma ponte intransponível, teremos que voltar. Seria um transtorno. — disse Stilico.

— E os estragos têm sido enormes. Ouvi falar que não poupam nem mesmo os templos dos deuses antigos.

— E pensar que até mesmo os persas, quando estiveram por aqui, pouparam os edifícios sagrados.

— E o que fazem às estátuas dos templos? Difícil será achar um outro Fídeas que as revele uma segunda vez da pedra! … Que fique claro que tampouco sou adorador de deuses de raios e maremotos, mas, de todo modo, acho essa destruição sem razão de ser. Mas como botar rédeas a milhares de desordeiros? — disse o grego.

— É o que são: desordeiros. Entram e saem das cidades como um gigante enraivecido — disse Stilico — Vi que trazes uma cruz de ouro entre teus pertences. Devo imaginar que falo com um adorador de Cristo ou com um bom negociante que pretende vendê-la assim que achar bom comprador?

— Adorador de Cristo não é exato. Adoro a Deus, criador do homem.

— Perdão mas… não sustentam os cristãos que Deus e o Cristo são o mesmo ser?

— Não todos, general. No meu caso, creio em Deus, e vejo Cristo como Seu mensageiro.

— E Seu filho.

— Todos somos Seus filhos. — completou o grego.

— Mas então estão errados os bispos que, em Nicéia, confirmaram que Deus e o Cristo eram a mesma pessoa?

— Não sei entrar nos pormenores da discussão que foi levada a termo em Nicéia, mas eis como entendo a questão: se Deus é eterno, e Cristo nasceu, envelheceu e morreu, como pode ele, efêmero, ser de natureza divina? Se um dos dezenove atributos de Deus é o da imutabilidade, como pode Cristo, que nasceu do ventre de Maria, cresceu e tornou-se adulto, postular ser ele também Deus? Cristo é, a meu ver, apenas um homem, o primeiro dos cristãos. Aqueles que o seguem apenas tentam observar os seus preceitos, obedecendo ao mesmo Deus ao qual ele obedeceu, e é só.

— De todo modo, parece-me que não foi isso que disseram os bispos em Nicéia ou mesmo em Constantinopla, há alguns anos. Arius foi declarado herege…

— Sei o que disseram. Há os que crêem que Cristo é Deus, ou ao menos uma hipóstase Sua. E Arius mesmo é um deles. E há ainda os que falam em Espírito, dizendo que os três, o Pai, o Filho e o Espírito, são as três cabeças que formam um único Deus, transformado em Cila ou em Cérbero! O que não fazem um punhado de bispos fechados numa sala, com tempo e vinho suficientes? — disse o grego, exaltado.

Stilico, que parecia divertir-se com o nervosismo que assolava seu interlocutor, concordou:

— Nisso temos a mesma opinião, meu caro. A imaginação dos homens molda seus deuses segundo as alucinações mais improváveis.

— Posso perguntar, general, qual a alucinação que merece sua devoção? — voltou o grego, em tom malicioso.

— Não vou ser presa dessa tua provocação. Não entro em discussões religiosas, por mais de um motivo… Antes dessa onda de intolerância, o império sempre deixou a critério de cada um o credo que iria seguir. Apesar de haver uma religião oficial, sempre houve também liberdade de culto para todos, romanos e estrangeiros. Até mesmo tu, grego, deves lembrar que teus pais ou teus avós eram, com certeza, de religião grega, e cultuavam, conforme disseste há pouco com certo desdém, raios e maremotos. Se começa a haver algum clima de intolerância é devido à devoção de Constantino e dos que o seguiram, pois são justamente eles que, depois de terem sido perseguidos em Roma, agora perseguem quem os contraria. Acaso soubeste o que ocorreu com o Templo de Afrodite Urânia, em Cartago? — agora era o general quem se exaltava — Destruíram tudo. Um templo cuja circunferência era de milhares de côvados foi convertido em templo cristão por fanáticos, que expulsaram quem antes lhes deu abrigo. Convivo, grego, com milhares de homens de diferentes religiões e origens. Imagina que os africanos são proibidos, por sua crença, de combater à noite, e os celtas têm de fazer pequenas oferendas pouco antes da batalha. Os gregos, como deves saber, exigem um sacrifício e um áugure. Até esses pequenos costumes, que por vezes me enfurecem, procuro deixar que cumpram, pois sei que são homens honrados e que procuram apenas satisfazer aos deuses em que acreditam. Nenhum, nenhum deles, grego, quer impedir o outro de seguir seu credo; convivem e até lutam lado a lado, compartilham da mesma tenda. Por que os cristãos não podem fazer o mesmo? Desde que Teodósio proibiu os sacrifícios religiosos, os legionários não guerreiam com tanto vigor, pois pensam estar em desacordo com os deuses que antes os protegiam. Soubeste o que Cinegius fez com os templos de teus antepassados? Mesmo os persas respeitaram tua terra mais que os teus companheiros cristãos, que dizem apenas obedecer à vontade de seu Deus. A verdade é que cada homem faz o que entende ser certo. Mas algo está fora de lugar quando se põe na boca de um deus o que é vontade do homem. Nenhum deus, nem mesmo o cristão, pode ser tão ciumento dos outros deuses!

Em vez de enraivecer, o discurso de Stilico apazigua o comerciante, que declara, quase em tom de confissão:

— Sei do que falas e, por mais duro que seja admitir, concordo com o que disseste. Não vejo o porquê da intolerância cristã, se os ensinamentos de Cristo parecem ir em direção contrária. Não posso imaginar outro motivo que não a ambição dos bispos. Não tenho dúvidas com relação à minha fé, mas tampouco posso pensar que exista um só deus, que controle a todos. Assim como cada homem tem sua esfera de influência, o mesmo ocorre com os deuses. Posso crer, sem risco de heresia, que sobre a Grécia ainda reina Zeus e sobre o Egito, Ísis e assim por diante. Se afirmasse o contrário, estaria declarando guerra a todos os que não partilham de minha fé.

— Mas os bispos da tua fé, penso, o acusariam de politeísmo, de heresia, portanto.

— Esta é precisamente a ironia: que esses beberrões desocupados acusem a nós de politeístas. Eles, que acabam de criar um deus de três cabeças…

Vendo que o comerciante já havia bebido o bastante e corria agora o risco de repetir-se, o general calmamente disse:

— Talvez fosse o caso de deixá-los pensar assim. Penso que poucos no mundo civilizado hão de segui-los nessa idéia que chamam de “trindade”.

— Assim penso também. Mas eles não concordam conosco. E perseguem a qualquer sacerdote que desconheça as últimas decisões de seus concílios. Soube de um prelado da Panonia que, sem saber da decisão sobre a trindade, foi perseguido e morto por heresia.

— De minha parte, sou obrigado a admitir que o império não tem mostrado mais tolerância do que os bispos de Constantinopla: Sinesius, há pouco, tentou convencer Arcádio de que as fronteiras devem ser confiadas tão somente a tropas de legionários romanos, e não aos bárbaros, em troca de pagamento.

— E o imperador, o que disse?

— Ouviu o conselho, aplaudiu sua sabedoria, e o esqueceu com o gole seguinte de vinho.

Rindo, o grego respondeu:

— Eis aí novamente o vinho! Chego a pensar que o controle do império está nas mãos de novas bacantes.

— Longe de Tebas não estão. — respondeu o general, tomando mais um gole de vinho.

— A propósito, o que houve em Tebas? Os godos a pouparam, ouvi falar. Mas depois houve uma matança…

— Tebas foi salva dos godos por seus portões e pelos nossos legionários. Mas seus habitantes, ingratos, vendo que tivemos muitas perdas, armaram uma rebelião, com o fim absurdo de se tornarem independentes do império, como uma ilha que se julga livre do mar! O que seguiu foi uma chacina: não há como aplicar a disciplina das batalhas em campo aberto dentro dos muros de uma cidade.

— Ah, a disciplina, a estratégia…

— Nossas aliadas, as únicas, talvez, já que o entusiasmo parece estar contra nós.

— Já que falamos nesses aliados, quero lhe fazer presente de um jogo que consegui através de mercadores tártaros. Ele simula uma batalha sobre uma mesa desenhada. Conheces?

— Só conheço o jogo de dados, esse dos legionários.

— Traga-me o jogo das pedras brancas e pretas — ordenou o grego ao pajem.

— E o que faz o jogo?

— Faz com que se enfrentem dois exércitos. Ao contrário dos dados, o resultado depende do uso da estratégia; a sorte tem muito pouco a ver com a vitória… tanto no jogo quanto nos campos de batalha.

Volta o pajem com uma caixa decorada de prata e pedras reluzentes.

— Mas isto é um prodígio! Como se joga?

— Penso ter em mente as regras do jogo. Posso passá-las ao senhor, se perdoar em mim a falta de habilidade como oponente, já que sei muito pouco sobre estratégia.

— Ensina-me o teu jogo então, que te ensino a estratégia militar em retorno. Quando chegar a hora de nos despedirmos, teremos ambos compartilhado algo que antes pertencia só a um de nós. Se não é a isto que chamam amizade, não saberia então o que é!

— Sinto-me honrado em ser seu aluno nas artes da guerra. Só temo não ser um aprendiz digno de sua atenção.

— Todo aprendiz é digno, grego! Mas começa o jogo!

Colocaram o tabuleiro em posição. O mercador iniciou:

— Que esta seja a mesa sobre a qual nasça a amizade, como o senhor acaba de dizer, e não o ódio, como é habito entre os que lideram exércitos que se enfrentam. Consta que grandes imperadores do nascente medissem sua sabedoria militar através do jogo, poupando seu exército. Terminado o jogo, o perdedor se retirava, levando seus comandados sob o manto da vergonha, enquanto o ganhador festejava conhecer as estratégias de seu adversário…

Stilico fita seu interlocutor com um sorriso cínico:

— Queres mesmo convencer-me de que uma guerra pode ser resolvida por este jogo, sem mancharmos de sangue nossas lanças, pelo respeito ao resultado?

— Foi o que me assegurou o homem que mo vendeu. A justificativa é simples. O jogo é completamente fiel à realidade: se o imperador perdedor enfrentasse o ganhador no campo de batalha, o resultado se repetiria, tal é o conhecimento adquirido pelo jogador sobre as estratégias de seu inimigo. Ganha o jogo quem souber usar artimanhas táticas não decifradas pelo oponente, com as quais poderia repetir seu resultado no campo de batalha, usando homens no lugar das pedras.

Cético, o general senta-se à frente de seu amigo recente e se impressiona com as poucas regras a serem observadas.

Em pouco, passa a derrotar seu adversário com facilidade.

— Parece-me que, tendo aprendido as regras com exatidão, esqueci-me de aprender como ganhar neste jogo. Espero que me perdoe… não tenho nem mesmo a dignidade de ser um aprendiz razoável. Estou feliz de não estarmos apostando! — disse Hipófobo, em tom jocoso.

— Quando o assunto é estratégia, é natural que eu te vença; não deves te sentir diminuído por isto. Em compensação, se eu tivesse que barganhar contigo o preço do presente que me destes de graça, serias tu o mestre e eu o aprendiz. Quem sabe tirarias de mim mais do que tirou Alarico de Corinto!

E os dois riram. E o riso, o vinho e o jogo continuaram, até o amanhecer.

9.

O dia subiu a contragosto, devagar e nublado.

Já em marcha, Hipófobo notou que as tropas haviam se desviado do rumo:

— General, não deveríamos ir em direção ao poente? Há um caminho para Pilos mais ao sul que poderíamos  ter tomado.

— Hipófobo! Vejo que não deves ter descansado o bastante. Logo cedo falando sobre o nosso rumo? Recebi notícias dos batedores dizendo que Alarico vai com suas tropas para noroeste. Espero encontrá-lo antes de chegar a Elis… Sendo assim, mudei de rumo. Se quiseres te separar de nosso grupo, podemos nos despedir.

Por um instante, Hipófobo vacilou. Mas logo respondeu:

— Não. Enquanto houver algo de oeste em tua rota, irei contigo, se me permitires. Depois viro para sul e vou costeando até Pilos. De todo modo, não desejo encontrar com ladrões novamente.

— Podes nos acompanhar até onde achares que deves. Mas eu, se fosse tu, já teria me desgarrado. Já que nos acompanhas, recomendo vir conosco até a costa e prosseguir por mar até Pilos. O que achas?

— Não é má idéia. Conheço alguns marujos que poderiam fazer a viagem.

— Então descansa.

O trote dos cavalos era lento mas firme. Stilico parecia agora mais determinado. Mesmo sua condescendência com Hipófobo havia, por alguns instantes, desaparecido, nublada pelas notícias de Alarico.

10.

À noite, o general convida mais uma vez o grego para a ceia:

— Ave.

— Ave. Senta-te. Pedi para trocar o vinho. Estava muito fraco. Este é Claudiano, poeta de renome, de quem já deves ter ouvido falar — com um movimento da cabeça, o general aponta para uma penumbra com reflexos loiros à sua frente.

Ave. — saúda o grego.

Ave. — ouve, da penumbra.

O general sentou-se frente a frente com o poeta. Entre os dois, o tabuleiro. Claudiano permanecia estranhamente silencioso e parecia estar concentrado na próxima jogada. O general, distraído do jogo, parecia concentrado em outra coisa naquela noite. A conversa demorava a ganhar fluência.

— E quem ganha o jogo? — pergunta o grego.

— Ainda ninguém. Nossos exércitos estão ambos bastante abatidos! — diverte-se o general, com uma risada sarcástica.

— Mas o teu exército parece estar em melhor posição. Estás nos montes e eu na planície! — diverte-se também o poeta, satirizando a planura do tabuleiro.

— Claudiano chegou esta tarde. Acabo de ensinar-lhe as regras.

— Este jogo parece tão fácil de aprender quanto difícil de jogar. — completa o poeta.

— Talvez, como as próprias batalhas… — diz o grego.

— Falei para Claudiano o que me disseste, sobre o jogo simular situações reais. Ele, aparentemente, acompanha a tua opinião.

Ah, encontrei então um aliado. — disse Hipófobo.

— Tolo sou eu, que deveria ter aprendido que, em matéria de guerras, é mais prudente estar de acordo com um general que com um mercador! — ironizou Claudiano, certamente entediado pelo jogo.

— Prefiro-te assim, Claudiano. Que sejas sincero, ainda que sarcástico. Conservo-te ao meu lado pelo mesmo motivo que conservo a Hipófobo. Prefiro ouvir críticas e gracejos sinceros que adulações e elogios falsos.

O grego alegra-se que a conversa tenha tomado um rumo mais leve:

— Tinha a impressão que um general romano tivesse muitos amigos e que, no mais, fosse impossível ter acesso à sua companhia. Fiquei muito impressionado com a tua falta de cerimônia em receber-me como convidado. Primeiro salvaste minha vida, o que gera, por si só, uma tremenda simpatia! — e riram o grego e o general. Claudiano permanecia novamente atento ao jogo, imóvel.

— Na verdade, ainda antes da morte de Teodósio, eu vivia cercado de pessoas. Aconselhava-me com vários centuriões, cônsules e magistrados. Depois vi que a maioria deles queria meu posto mais do que minha companhia e o poder que tinha sobre Teodósio mais que minha confiança. Passei, aos poucos, a estar só. Posso dizer, sem medo de errar, que tenho mais inimigos que aliados, e mais aliados que amigos. Estes, portanto, quase não os tenho. E sincero como tu, nenhum. — disse o general, com um sorriso.

— Pois me honra saber que conto com tua amizade. Há os que dizem que minha sinceridade é demasiada; que deveria ser menos crítico. Às vezes penso que podem ter razão…

— Cícero não se engana quando diz, pela voz de Lélio, que só há verdadeira amizade quando há igual sinceridade de ambas as partes. — acrescentou Claudiano, que deixava de lado o tabuleiro.

— Não quero contradizer Cícero mas, diga-me, Claudiano, o que é, afinal, a sinceridade? — disparou o grego, inesperadamente.

— Ah, uma discussão entre sábios! Era o que me faltava! — resmungou Stilico.

— Mas não devo fugir ao desafio, general. — e voltando-se para o grego, continuou — Parece-me que a sinceridade é, na verdade, um outro nome da constância. Se pergunto a opinião de um legionário sobre seu oficial, deve responder-me o mesmo que responderia a um companheiro de tropa. — disse Claudiano.

— Ou seja, se mantém a sua opinião, é sincero?

— Exato.

— Ora, mas as pessoas mudam de opinião, não é verdade? E nem por isso mentem.

— Sim, mas não conforme quem as inquire.

— Então não é a opinião que deve manter-se constante. — resume o grego.

— Digamos então, que é a personalidade… Mesmo mudando de opinião, um homem deve manter sua personalidade, sua identidade, por assim dizer. Deve ser sempre o mesmo homem.

O general mantinha-se à parte, ouvindo a discussão.

— Mas a identidade não existe, é uma farsa. — disse, surpreendente, o grego.

— Como?

— Vejamos: a identidade se dá pela necessidade de diferenciação. Se não nos importássemos em diferenciar os objetos, as coisas, as pessoas, não poderíamos emitir nenhum juízo sobre o mundo, e toda a existência passaria em vão. Para tornar as coisas irrefutavelmente diferentes, damo-las nomes, nomes diferentes, para que não as confundamos mais. Assim, uma garrafa não é uma cadeira, Claudiano não é Stilico e Stilico não é Claudiano. O resultado é um mundo cheio de diferenças. Um homem só é igual a si mesmo, e a ninguém mais! A essa singularidade chamamos de identidade. Mas esta solução, ao resolver um problema, cria outro: como pode a Esparta do tempo de Leônidas ser hoje ainda Esparta, se agora é só a sombra do que foi? Como pode, algo que mudou, e mudou de forma radical e definitiva, conservar ainda o mesmo nome, a mesma identidade? Em outras palavras: como posso eu, que já segui a religião antiga de meus antepassados, e hoje sigo os ensinamentos de Cristo, ser ainda Hipófobo, a mesma pessoa? Não sou, portanto, sincero, nem mesmo com minha religião, nem mesmo em minha devoção a Deus, como posso ser sincero com os homens?

— Agora pareces um bispo de Constantinopla! — provocou Stilico — Hoje o vinho está mais forte!

O grego, no entanto, continuou.

— Como pode perdurar a identidade se o homem não é o mesmo? Quando uma fruta apodrece e torna-se uma casca seca, pode-se dizer que é ainda uma fruta? — continuou o grego.

— Vejo que tens as habilidades de um bom comerciante. Não sei resolver o teu problema, admito. Quer me parecer, no entanto, que algum grego antes de ti evocou o que chamou de essência, para dar continuidade à identidade… — ironizou Claudiano, sentando-se novamente no banquinho do jogo.

— Mas dizer que há uma essência que subsiste à passagem do tempo e dá abrigo à identidade é criar uma idéia para resolver um problema. Esta essência não existe, de fato, a não ser na mente de meu ilustre compatriota. E, se admitirmos que cada homem tem sua própria realidade privada, incomunicável, como pode-se falar em sinceridade, se o mundo que vemos é diferente para cada um?

— O fato é que, da mente desse teu compatriota, esta idéia passou a habitar um sem número de mentes, o que é significativo, de todo modo. — terminou Claudiano.

— Mas não resolve o problema! — concluiu o grego, que insistia em dar a última palavra.

— Claudiano, se queres entrar em confronto de idéias, não devias procurar um mercador para oponente. Eles são incansáveis: só terminam depois de vencer-te… ou de vender-te algo! — brincou o general com seu hóspede.

— Admito que perdi minhas batalhas de hoje. Mas perder uma discussão para um mercador não pode ser considerado vergonhoso, assim como um jogo de guerra para um general. Minhas derrotas são, portanto, desculpáveis. Sendo assim, peço que me desculpem se já me retiro. Boa noite.

— Boa noite. Prepara-te para a viagem de amanhã. E reza para veres a tua primeira batalha. Melhorará teus poemas!

— Chego a pensar que estou mais ansioso por ela que tu mesmo. — disse Claudiano, retirando-se.

— Isso não! Ninguém quer olhar esse Alarico nos olhos mais do que eu. — protestou Stilico para a sombra do amigo que desaparecia. O grego ficou olhando para a disposição das peças no tabuleiro.

— Tens alguma idéia para continuar o jogo? — perguntou o general.

— Nenhuma… Penso nesse Alarico, em como deve ser o bandido! Se há algo que une a nós três, eu, tu e Claudiano, é a vontade de vê-lo derrotado. Às vezes parece que a paz romana vai desaparecer com essas invasões. E se esse moleque entra na Acaia e faz um estrago desses, imagina o que não faria um general experiente!

— E o que tem a ver isso com o jogo?

— Na verdade, nada. Pensava ainda se, como me contaram, este jogo tem o poder de emular tão fielmente a realidade que poderia evitar guerras.

— Ainda bem que Claudiano retirou-se mais cedo hoje! Vocês fariam um bom par de visionários! A guerra não é substituível por nada! A guerra, de certo modo, é a roda que faz o mundo girar. Se não houvesse a guerra, os povos se entregariam à lascívia e à preguiça, à usura e a todos os excessos. Não haveria moral nem bom senso. E tu deves saber o que significa desprezar o metron

— Falas agora como grego! — saindo da tenda, o grego observa a noite. — meu pai vivia me falando sobre o metron, nike, themis e tudo o mais. Nas noites como esta, de lua nova, saíamos pelos caminhos que levam às montanhas e ele me contava as histórias sagradas, tendo as constelações como auxiliares. Sabia boa parte da Odisséia! Arrependo-me de não tê-la aprendido como deveria.

— Ainda podes aprendê-la se quiseres. Quantos anos tens? Vinte e dois, vinte e três?

— Vinte e seis. E de nada adianta aprender a Odisséia se não for pela voz de nosso pai. Agora é tarde, não é possível fazer mais nada. Para mim, a Odisséia é quase uma história desconhecida. E será o mesmo para os meus filhos, já que não poderei ensiná-los. É incrível pensar que uma tradição que chegou até mim por dezenas de gerações foi desperdiçada porque fui relapso!

— Cada geração é responsável por perder algo… e por ganhar algo. Os costumes devem ser mantidos, mas não são eternos, não é mesmo? Como poderias continuar a recitar a história se já não o farias com a entonação necessária, já que és cristão e não acreditas nos deuses presentes no enredo? Não se pode esperar girar algumas rodas e outras não. Tudo gira, tudo muda, nada permanece.

— Falas como meu pai novamente, quando falava de Heráclito…  Sei que deve ser desse modo, mas mesmo assim me aborreço. Sinto-me, em parte, culpado por ceifar a tradição que herdei de meus antepassados. Pergunto-me se tenho esse direito, o de estancar, apenas com a minha vontade, uma linha que vinha de um passado do qual não tenho notícia… Quase sempre a resposta que obtenho é “não”.

— Uma tradição como a dos teus não desaparece. Ela se esvai, se espalha e perde força. É a isso que assistes e isso que te incomoda. Mas o que não vês é que talvez seja esta a maneira que ela encontrou de sobreviver: diluindo-se por outros povos, mesclando-se com outras. — disse pacientemente o general ao amigo, o qual parecia vítima da depressão que o vinho instiga, quando não se cede ao sono no momento exato.

— Mas a sua pureza é perdida! Ao misturar-se nunca mais vai ser a mesma!

— De que pureza falas? As tuas tradições são fruto, e tu bem o sabes, do encontro de vários povos, de várias guerras, de várias conquistas e invenções. Os avós de teus avós faziam sacrifícios a deuses dóricos, aqueus e jônicos. Não há nada puro. A tua tradição grega não é mais pura que a romana. É somente mais antiga. Ambas são o produto de mesclagens infindáveis, como o vinho que te turva o pensar é feito de raças de uvas que são mescladas desde que Baco as trouxe do oriente.

— Quem é Baco? Queres dizer Dionísio. — o grego riu um riso solto.

— Estás vendo o que quero dizer! — agora o general se permitiu um riso franco, feliz por ter feito o grego esquecer sua tristeza.

— Falaste bem, general. Tuas palavras acalmaram meu espírito de forma completa, porque eram palavras verdadeiras. E é bom ouvir quando a verdade é transmitida de forma plácida. — sorriu o grego, sinceramente agradecido.

— Tens o estômago fraco. E veja que este é o vinho de tua própria terra que bebes. De onde venho, ele é bem mais forte. Penso que devemos nos recolher. Vê onde está o Auriga.

— Dou-te razão. Boa noite. — pela primeira vez, abraçaram-se.

— Boa noite.

11.

Na marcha da manhã seguinte, o assunto era o mesmo da noite anterior:

— Já viu esse Alarico de que falam? — perguntou o grego.

— Nunca. Dizem que não é homem de hábitos exagerados. Estranha-me que tenha tomado esse rumo; que de romano tenha voltado a ser bárbaro, como se optasse por voltar à selva depois de haver conhecido a cidade.

 — Também não imagino o que leva um homem que já teve um cargo tão importante como o de líder de tropas a serviço do império a agir como um saqueador. Parece que, em Atenas, foi recebido muito bem. Teve conversas amenas com os dirigentes da cidade, depois de ter cobrado seu tributo por deixá-la intacta.

— Também soube disso… De certo modo, não me importo em saber quem seja esse homem. Sei o que fez em Corinto e que, se não for enfrentado, vai fazer muito mais. Pode até pensar em um dia fazer em Roma o que fez em Atenas. E então, o que diria o imperador?

— É um oponente que tem seu valor, com certeza.

— Um homem que decide deixar o comando das legiões para tornar-se um saqueador é louco ou gênio. Neste caso, talvez os dois.

— Resta saber se esse louco é tão perigoso quanto parece — disse o grego.

— Que é perigoso, não há dúvida. Mas estou certo de que vai se render quando, ao invés de cidadãos, tiver que enfrentar legiões romanas armadas e treinadas. A parte das legiões que o seguiu não é assim tão grande. O resto de seu contingente é de aldeões godos, camponeses sem treino, que fugirão do campo de batalha assim que virem um exército organizado. Além do mais, isso pouco importa.

— Como, pouco importa?

— Amigo, uma batalha não se vence quando os homens se encontram e o metal estala contra o metal. A batalha, pelo menos a batalha pessoal, que se dá entre guerreiro e guerreiro, é vencida antes de entrar em formação. Se estiveres conosco quando a batalha irromper, olha no rosto de alguns legionários. Digamos, dez. E tente lembrar quais têm o olhar de confiança e virtude, o que os teus compatriotas chamavam de andreia. Depois da batalha te encontrarás com estes. Os outros, os que traziam olhares de receio, de contrariedade, de hesitação, estes não voltarão. Quem te diz isso sou eu, que passei a vida cuidando da guerra. Algumas vezes, na campanha da Ibéria, despedi-me de um amigo de armas pela manhã sabendo, pelo olhar que trazia, que não o veria mais.

O grego permaneceu calado. O general continuou.

— Os espartanos sabiam disso. Todo o seu treinamento era voltado para a arte de lidar com o medo. Um guerreiro que não tem medo é um guerreiro perfeito. Bastam alguns fundamentos, alguns exercícios, e está feito um guerreiro de valor. O difícil é manter o olhar de coragem e confiança no rosto depois da primeira batalha, e da segunda e da terceira, quando alguns de seus companheiros morreram das formas mais desastrosas ou ficaram imprestáveis para sempre… Já vi, por outro lado, um guerreiro sem medo matar dezenas de inimigos e afugentar outros tantos, um rapaz mirrado, que lutava ao nosso lado, na Ibéria. Disseram que havia matado o próprio irmão, e que procurava a guerra a fim de poder redimir-se, causando a própria morte. Pensava que só poderia descansar depois de encontrar o irmão na outra vida e desculpar-se. E se tinha que morrer para encontrar o irmão, que fosse em batalha!

O grego não se agüentou e riu. O general sorriu levemente.

— Agora, contando essa história, é mesmo engraçado. Mas se o tivesses conhecido, não ririas. Olharias para o chão, por respeito. Esse jovem procurava a guerra como meio de encontrar a morte, já que não conseguia pular de um rochedo. E guerreava de forma maravilhosa. Era a guerra personificada, o próprio Marte em ação.

— E ele encontrou o irmão?

— Como vou saber? Não morri!

O grego riu mais uma vez. Mais uma vez, o general limitou-se a sorrir.

— Ele morreu sim. Mas não foi morto pelo inimigo. Quando ateávamos fogo a uma aldeia no sul da Ibéria, ele pediu que o trancássemos dentro de um casebre. Morreu asfixiado. Acho que foi a morte de mais coragem a que assisti.

— Morte horrível.

— Existem piores, grego… mas a pior, é a de que te falei. A que ocorre no olhar, antes da batalha, a morte ocasionada por um inimigo ainda desconhecido, sem rosto. Se um guerreiro tiver o olhar de espanto e hesitação, está morto, e o sabe. Vai para a batalha cumprir o seu destino, ou se acovarda e foge. Quantas batalhas não se ganham somente com o olhar, sem que os guerreiros se toquem! Soubeste da batalha de Mascezel contra seu irmão Gildo, o Africano? Não houve sangue derramado. Um exército enorme rendeu-se momentos antes de iniciar a batalha. Isso porque…

A galope, aproxima-se um batedor.

— General, trago uma mensagem da vanguarda: encurralamos os godos no topo de alguns montes perto de Peneus, fronteira de Elis.

— Que excelente notícia me trazes! Temos controle sobre eles? São muitos?

— Eles não têm como fugir, general. Estão isolados nos montes. Podemos fechar o cerco ou esperar que se rendam. E parecem ser uns cinco mil, não mais que isso.

— Reforce as linhas e segure-os lá. Queime tudo ao redor. Se não há por onde fugir, vamos fixar o cerco.

Stilico vira-se para Hipófobo:

— Amigo, devemos nos despedir. Não é prudente acompanhar um general prestes a entrar em guerra. De todo modo, não deverás encontrar nenhuma dificuldade em chegar a Pilos.

— Fico feliz que tenhas o invasor onde o queres. Talvez o jogo que te dei tenha, afinal, servido para algo!

— Não poderiam ser melhores as notícias e o teu jogo tem certamente algo a ver com elas.

— Tenho uma dívida para contigo. Espero que nos encontremos em breve para que possa pagá-la.

— A dívida da própria vida não é pequena e não pode ser paga. Portanto não te preocupes com ela. — disse rindo o general. — Não há dívida alguma. Tiveste sorte no encontro com os saqueadores, é só. Agora tenho que ir.

Despediram-se com um abraço, sem apear. O general fez as tropas acelerarem o passo. O sol estava a pino quando o grego viu o general sumir por detrás de uma montanha. Quando sol se punha, ainda via passar o exército romano, passo acelerado, rumo ao cerco e à batalha.

12.

Perto de Peneus, até mesmo os cursos d’água haviam sido desviados para que os godos não tivessem o que beber. As florestas que circundavam os montes haviam sido queimadas, com mais de uma finalidade: para que nenhuma deserção por parte dos godos passasse despercebida e para gerar fumaça irrespirável, criando o pânico nas hordas de Alarico. Apesar disso, nem mesmo uma única deserção havia ocorrido.

O cerco já durava nove dias, o que, segundo Stilico, já era o bastante para deixar apavorados os inimigos. Alarico estava lá, pensava o general, isolado, sem recursos, sem alternativa. Mas permanecia imóvel. Não havia sinal dos godos, além da fumaça noturna e de alguma algazarra ouvida de vez em quando, vinda dos cumes dos montes.

Na manhã do décimo dia, as colunas de legionários posicionaram-se ao longo dos topos dos montes circundantes. As sombras se arrastavam longas ainda quando a movimentação terminou ao redor das florestas que abrigavam o inimigo. Entre cada legionário e a floresta, o espaço de vinte navios. Ao todo, o contingente imperial era de vinte e cinco mil homens a pé, onze mil a cavalo, cinco mil arqueiros e uma quantidade enorme de ajudantes, ferreiros, cirurgiões, e os que cuidavam das criações de porcos, bois, bodes e carneiros.

Stilico tomou posição no topo de um monte que avistava o inimigo a partir do sul. Via todo o contingente do império, à direita os homens banhavam-se no sol ainda fraco, à esquerda, estavam à sombra do monte que atacariam, ainda no breu sem dia.

O general conhecia bem a agitação que antecede uma batalha. Os mais jovens fingem coragem gritando. Para azar dos comandantes, alguns desmaiam, principalmente os da primeira fileira, os mais visíveis. Estes são retirados rapidamente e substituídos por soldados mais experientes. Atrás de cada homem, uma fileira de quinze outros. Atrás destes, os arqueiros. Por detrás de tudo, a cavalaria barulhenta que, embora entrasse na batalha bem mais tarde, já se perfilava ao longo do cerco.

Os augúrios foram interpretados e os sacrifícios feitos, apesar das proibições formais. O sangue do cabrito verteu como deveria.

Tudo estava pronto.

13.

Quando ia ordenar que soasse o toque de combate, Stilico recebe de um mensageiro godo uma carta. Estranhamente, o mensageiro vinha da retaguarda e partiu sem esperar resposta.

Se te escrevo agora, é por amizade que o faço.

Agradeço a acolhida; chego mesmo a admirar-te pela simplicidade e sinceridade com que me deste abrigo e, mais importante, me ofereceste tua amizade. Fosse eu o grego que te convenceste que era, aceitaria, honrado.

Não fui falso. Lembra-te do que falei sobre a identidade: é uma grande mentira. Como tu, que foste para outros um cavalariço quando menino e hoje és o senhor do mundo, fui, para ti, um mercador grego durante alguns dias, e hoje volto a ser teu inimigo. O que serei para os homens que insistem em seguir as minhas ordens? Ainda o general romano ou o chefe godo? E para ti, serei somente um desertor louco? Tudo é tão misterioso para mim quanto o é para ti.

Talvez te perguntes se seria verdade a história dos imperadores do oriente, que não guerreavam, mas jogavam. Como te disse, não te menti em nada além do necessário. De todo modo, temos a chance de descobrir ainda hoje.

Disse que te escrevo por amizade: quero que penses bem antes de entrar na batalha. Lembra de todos os que viste cair na guerra, em sua agonia, seu desespero. Pensa na eternidade que será viver como escravo, ou inválido, tu, que foste criado para a guerra e chegaste a ser o general de um império sem fim. E perceba, caso não tenhas notado, que recebeste esta carta de um mensageiro que veio de tua retaguarda, e não de onde esperavas que viesse.

Se ainda assim decidires pela batalha, sugiro que não tentes usar as táticas que usaste no jogo contra mim, pois as tenho todas memorizadas. Desnecessário dizer que não joguei contigo a sério: deixei-te vencer para observar o teu jogo. Mas saiba que te julgo um oponente difícil. Daí a necessidade do ardil.

Conhecer tuas táticas é, portanto, a minha vantagem. Mas tu também tens a tua pois, como me dissestes há poucos dias, alegas saber se um homem vai morrer antes da batalha somente através da observação de seus olhos. Pois pega agora teu escudo, polido como o de Perseu, e o coloca em frente ao teu rosto. Encara teus próprios olhos, consulta teu próprio oráculo… Se eu pudesse daqui ver a ti e aos teus olhos, saberia se hesitas ou se estás firme, saberia já qual de nós vai morrer.

Tu, com certeza, já o sabes.

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