A luz que a cortina da cabine filtrava foi o bastante para me despertar. Olhei pela fresta e tive boas surpresas: o dia maravilhoso que se abria, depois de quatro dias de chuvas intermináveis e de um clima irritantemente úmido, e a visão dos subúrbios de minha cidade, a sensação de alívio que precede a chegada. Poucos minutos e descia na estação.
Ordenei que levassem minha bagagem pois decidi fazer a pé o percurso até minha casa, para retardar ainda um pouco minha chegada. Depois de onze meses longe de casa, distante em lugares que não pertencem a país nenhum, a sensação de chegar de trem, a gradual aproximação de cenas e lugares familiares, o lento reconhecimento do clima, do relevo, da língua falada e escrita é um alívio. Mas essa adaptação ao lugar de origem não se dá, ao menos para mim, de uma só vez. Sei que a postura de antropólogo continua ainda por dias ou mesmo semanas.
Saí da estação apenas com a roupa do corpo. No caminho, já perto de casa, vejo o cemitério do bairro e decido fazer uma visita aos túmulos de meus pais.
1.
Não há dúvida que as cidades revelam a si mesmas através dos espaços reservados a seus mortos. Eu, que quis ser arquiteto, aprendi que o caráter urbano é criado em grande parte pelo espaço que percorremos no dia a dia, pelo espaço com o qual convivemos.
Sei de ruas de cemitérios que são compridas e balizadas por construções surpreendentemente altas, que impedem a visão do todo, de outras ruas e vielas. Nessas ruas é tarefa fácil perder-se. Já me perdi nesses espaços, sem saber por onde voltar, sem saber se aquele álamo era o que havia visto de outro ângulo ou se aquele anjo recurvado era o mesmo que havia percebido da entrada. Já fiquei sem saber por onde voltar e cheguei a desesperar-me, pois já me misturava com os mortos e conhecia mais os seus recantos que os caminhos que poderiam me desviar daquele lugar. Já me perdi também no seu tempo, que parece me narcotizar, me atrasar, me reter para além do que corre na cidade. Algumas vezes, cheguei num cemitério para encontrar algum túmulo e, distraído em procurar, olhando cada um, acabei por fazer uma coleção mental de seus ocupantes e mesmo de imaginar-lhes o caráter.
Em lugares distantes, já vi cemitérios que eram somente uns caminhos marcados por cruzes de pau. Faziam parte da paisagem e do cotidiano. Os adultos faziam uma reverência ao passar; as crianças brincavam jogos macabros.
Em outros lugares os mortos não são enterrados junto a uma cruz e sim junto a um objeto que lhe foi caro ou que lhe serve de símbolo. Vi mulheres enterradas com seus bordados ou junto a flores, paninhos ou retratos. Vi velhas senhoras serem enterradas usando seus vestidos dos tempos de garota. Algumas seguravam carretéis e vestiam dedais, outras carregavam sacolas de batatas ou um pote de morangos. Outras ainda levavam um saquinho de terra de outro lugar, outras tinham livros nas mãos, outras portavam cartas e selos estrangeiros ou vestiam trajes de banho. Os homens seguiam o mesmo padrão: portavam relógios, ferramentas, cadernos de anotações, bastões, dinheiro, armas, vidros de perfume e feixes de trigo. Cheguei a ver homens feitos serem enterrados com bonequinhos, piões ou pandorgas. Lembro de um que levava um bilhete de loteria na mão esquerda e uma promissória na direita.
Noutro lugar, um vilarejo de gente que perambula pelo continente sem se fixar, o morto só é enterrado depois de uma festa que dura quatro dias, na qual se faz tudo para que se vá de uma vez por todas: se ele não suportava cheiro de alfazema, perfumam toda a casa com ela; se odiava que se falasse de política, fala-se até não haver mais assunto. Depois de assegurado que o morto se foi, providencia-se o enterro.
Já visitei muitos lugares em que não enterram os seus mortos. Em um deles, colocavam o corpo numa pequena canoa cerimonial que rumava em direção a uma corredeira, a qual terminava numa queda d’água enorme. Dizia-se que iam ao encontro de suas próximas vidas; que, ao chegarem ao seu destino, os mortos teriam a chance de escolher seu novo destino como homem, formiga, pedra, rio ou bisão. Na língua falada por essa gente, era comum referir-se à canoa como “a última casa”. Ligada a essa crença havia uma proibição de alimentar-se de peixe, pois estes eram a fiel escolta do morto, anjos que faziam o papel de Caronte, levando o morto a um lugar que o permitisse tornar-se novamente vida.
Em outro lugar, criam em um grande cercado ao largo do vilarejo, uma certa quantidade de lobos, cuja função é a de devorar os mortos. Quem morre é embrulhado num tecido rústico púrpura (e esta cor só pode ser usada por um morto) e entregue, num carrinho que adentra o cercado numa cerimônia à qual toda a comunidade comparece. Nos casos em que o morto é desprezado pelo grupo de lobos, os parentes que assistem ficam transtornados e discutem entre si, sob o peso de vergonha.
2.
Percebo hoje que toda essa coleção de visitas a países, que esse inventário de possibilidades de existir que guardei e documentei cuidadosamente só me fez herdeiro de mim mesmo; só fez com que pudesse acumular em minhas lembranças todos os traços que fazem do homem um gênero; e deste homem em particular um homem único, como, de resto, o são todos os homens.
Se é verdade, como já concluíram alguns, que só existe o tempo presente (pois o passado são nossos medos e nostalgias presentes e o futuro são nossos anseios presentes) ou se, pelo contrário, o presente é o único tempo que não existe (por que é tão infinitesimal para o tempo quanto o ponto o é para a reta), não importa. Percebo hoje que cada instante, cada decisão fez de mim o que sou hoje e de cada um o que é.
Se nossos destinos são cruzados, se existimos graças à história do universo que nos precede; se somos, de certa forma, a síntese momentânea dessa história de planetas e poeira, de estrelas, o que dizer da misteriosa atração entre eles (a qual os gregos deram o nome de Eros para poder chamá-la pelo nome, criando assim a ilusão de sua familiaridade) e da obediência à ela?
Se somos a resultante dessa história infinita que nos precede, a qual engloba tanto a invenção do astrolábio quanto a configuração dos astros, como posso ter a ilusão de que não sou o camponês das planícies alagadas do oriente ou o místico da península desértica? E, mesmo assim, como ter a ilusão de que, não sendo nenhum deles, possa entendê-los minimamente?
Ao voltar de uma expedição da qual participei como antropólogo contratado, revejo no caminho para casa os túmulos, as construções de mármore e esculturas de anjos angustiados dos cemitérios da minha cidade natal. Às vezes penso que eles são os mais estranhos entre todos os povos que conheci; e eles somos nós.
Deixei o cemitério. Não consegui encontrar o túmulo de meus pais.